
UNDER_SPOTLIGHT: WHITENOISE
Nesta edição do under_spotlight, mergulhamos na visão, no percurso e na linguagem sonora de um dos projectos mais consistentes da electrónica nacional.
UNDER_SPOTLIGHT


WHITENOISE é um projecto que nasce da relação directa entre o vinil, a pista e o tempo. Formado por Pedro Gonzaga e Luís Rocha, o duo construiu uma identidade própria dentro da música house, marcada por grooves densos, linhas de baixo físicas e uma leitura crua, mas altamente funcional, do dance floor. Aqui, a técnica nunca se sobrepõe à intenção: cada transição é pensada como um ponto de contacto imediato com o público.
Mais do que DJs, os WHITENOISE afirmam-se como curadores de experiências prolongadas, onde a música tem espaço para respirar, crescer e criar tensão. Essa visão estende-se naturalmente à FAINA, editora e promotora de eventos que fundaram, concebida como uma plataforma para um público conhecedor, interessado em sessões longas e intensas, da tarde até à noite, sempre com a pista como centro da narrativa.
Entre discos esquecidos, descobertas obscuras e testes constantes em contexto real, o projecto vive da leitura do momento e da química com quem está do outro lado da cabine. Ouvir WHITENOISE é entrar num estado de sincronização rara, onde o groove se transforma em movimento e a alegria em euforia.
Como é que se conheceram e de que forma surgiu o projecto WHITENOISE? Em que momento perceberam que fazia sentido unir visões e construir algo em conjunto?
Pedro: Somos os dois djs deste os 17/18 anos mas no início da década de 2000 eu era residente da Estação da Luz e o Luís residente da Quest, o club concorrente. Conhecíamos bem o trabalho um do outro e valorizávamos muito o gosto musical de cada um. Naquela altura ser residente era ter uma identidade própria que se revelava também na sonoridade do próprio club e isso era fantástico.
Até que por volta de 2012/2013 o panorama musical nos clubs ficou muito diferente e a tomar um rumo com o qual não nos identificávamos.
Luís: Foi aí que decidi abandonar a Quest e praticamente ao mesmo tempo o Pedro deixou a Estação da Luz. Seguimos carreiras como freelancers a tocar em vários bares, festas e clubs a título individual até que fomos convidados para um back 2 back num evento de um amigo. Parecia que já tocávamos juntos há anos e anos, a malta gostou tanto que decidimos repetir, arranjar um nome e criar o projecto.
Ainda continuámos a tocar individualmente até que uma noite eu estava a tocar num bar de Aveiro e o Pedro noutro. No fundo fizemos concorrência um ao outro e dividimos os nossos amigos pelos dois espaços. Jurámos que nunca mais aconteceria (risos).
A vossa abordagem ao house é frequentemente descrita como crua, grave e altamente funcional. Como é que esse equilíbrio se constrói na prática durante um DJ set?
Pedro: Para nós o Groove, o “balanço” de uma faixa é fundamental. Basslines poderosos, beats ritmados são aquilo que nos caracteriza. Tocamos a música que nos faz dançar e que idealmente se reflete também na pista de dança. Mas como dizes o equilíbrio é tudo.
Luís: Tocar um set apenas de banger atrás de banger não faz sentido para nós. Gostamos de encarar o dance floor com uma história, com momentos de êxtase, momentos de tensão, momentos para “respirar” até ao ponto em que estás tão envolvido na música, tão “embalado” que um simples beat te faz vibrar e não consegues parar de dançar.
O vinil continua a ocupar um lugar central nas vossas performances. O que é que esse formato acrescenta à relação com a música e com a pista?
Luís: O vinil faz parte da nossa identidade. Foi o formato onde aprendemos a tocar e no qual nos sentimos mais confortáveis e claro que nos dá mais gozo a trabalhar. Acrescenta acima de tudo alguma exclusividade, porque muitos dos temas que tocamos apenas são lançados em disco. Isso para nós é um fator muito importante: a novidade.
Pedro: Somos desde sempre “diggers”, ou seja, gostamos de procurar discos sejam novos ou antigos e encontrar aquela faixa que sabemos que poucos vão tocar e que vai fazer a diferença no dance floor. Durante anos foi este o nosso método de trabalho, percorrer o catálogo inteiro de editoras ou discografias completas de artistas. É algo que nos dá muito gozo... acho que nada bate aquele feeling de encontrar um lado B de um disco que nunca tocaste e que agora faz todo o sentido. Além disso a pista sente este trabalho, esta “diferença” se lhe quiseres chamar, tanto na sonoridade como até a nível visual, teres ali um dj a tocar discos, a mixar com mestria. Chamem-me old school mas acho que cada vez mais faz diferença. (risos)


São conhecidos por sets longos, onde a narrativa se desenvolve sem pressa. O que muda na forma de contar uma história musical quando o tempo deixa de ser uma limitação?
Pedro: Muda absolutamente tudo. Como referimos anteriormente fomos os dois djs residentes durante muitos anos. Um residente naquela altura tocava 6 horas, 7 horas e isso era incrível. O teu conhecimento musical aumenta, a tua sensibilidade ao ler uma pista de dança também. Ainda recentemente fomos tocar a Valência no Oven Club, um club intimista para cerca de 300 pessoas. Tocámos 5 horas e acredita quando te digo que passaram a correr.
Luís: Quando tocas tantas horas podes verdadeiramente aproveitar toda a tua mala de discos, desde os mais deep aos mais pista. E é nesse equilíbrio que tudo flui. As pessoas têm de respirar, de ter momentos em que descansam para preparar aquele novo build up. É incrível quando sentes que tens um dance floor “na mão” e que podes arriscar qualquer tema que vai ser aceite pelas pessoas. E isso só se consegue com tempo, com construção de um set, e claro com muita sensibilidade.
A química com o público parece ser um dos pilares do projecto. Como é que fazem a leitura da pista e decidem quando arriscar ou quando aprofundar o groove?
Pedro: Isso foi algo que aprendemos ao longo do tempo. Somos os dois djs formados na pista. Com isto quero dizer que passámos muitas horas a ver outros djs a tocar, e ainda hoje o fazemos, é uma aprendizagem constante. Só estando no meio da pista com os ravers é que consegues perceber o que os move, como se comportam, o que os cativa... é quase um “field work”. (risos)
Luís: Mas dando um exemplo mais prático, tentamos sempre manter o interesse da pista no que estamos a tocar como se estivéssemos a prepará-los para depois sim arriscar com um tema menos óbvio ou algo que queremos mesmo tocar mas que ainda não sabemos bem qual será a reação. De qualquer das formas nunca nos esquecemos que as pessoas estão ali para se divertir, para dançar e isso tem sempre de ser o principal objectivo.
A FAINA nasceu como editora e promotora, mas rapidamente se tornou uma comunidade. Que valores estiveram na base da criação deste projecto?
Pedro: Na sua génese a palavra FAINA faz parte de Aveiro e das suas gentes, por isso essa noção de comunidade foi algo que tivemos sempre presente desde o momento da criação do projecto. Nunca perdemos a ligação com a nossa cidade e com os seus artistas e isso acho que transparece cá para fora porque é de facto algo genuíno.
Luís: Além disso as pessoas começaram naturalmente a sentir-se parte da FAINA, parte do movimento. Abraçam o projecto como se fosse seu, falam dele com orgulho, convidam amigos e conhecidos para vir a Aveiro conhecer a FAINA. Não há maior orgulho para nós do que meter Aveiro no mapa da música electrónica.


Enquanto DJs e produtores, como encaram a relação entre a música criada em estúdio e a música testada directamente no contexto da pista?
Luís: Quando estamos em estúdio pensamos sempre nas faixas com o intuito de as tocar e como e onde as vamos tocar. Antes de produtores somos djs e isso é algo que não sai do nosso ADN.
Pedro: Todos os temas que editámos foram em colaboração com amigos e artistas que respeitamos e com os quais nos identificamos muito. Valorizamos muito essas sessões em estúdio onde damos o nosso input e onde contamos com a ajuda imprescindível do Fragoso, Charles Lazer, Andy Book ou Bessone para concretizar as nossas ideias. Recentemente dei um upgrade no meu conhecimento em software de produção num curso intensivo com o Fragoso e espero já em 2026 ter ainda mais novidades.
O vosso processo de selecção passa muitas vezes por discos menos óbvios ou entretanto esquecidos. O que vos atrai nesse lado mais subterrâneo da música de dança?
Pedro: Essa é a beleza do processo de preparação de um dj set, como que hibernar no estúdio no meio dos discos e preparar a mala para o fim de semana que se segue. Estamos constantemente à procura da próxima “pérola”, daquele tema que vai causar a diferença, por isso passamos largas horas a ouvir discos, a escolher, a separar e a catalogar. Isso permite depois ser mais fácil encontrar o tema certo para a altura certa.
Luís: Por exemplo, recentemente comprámos uma colecção de discos de um antigo club cheio de “bombas” dos anos 90 e 2000. São cerca de 2500 discos que ainda estamos a limpar, ouvir, alguns a recuperar, mas tem sido incrível encontrar tanta música boa e super actual. É esta mistura de discos antigos e discos actuais que nos caracteriza e que tentamos sempre manter.
Olhando para o percurso do projecto até agora, quais foram os momentos ou experiências que mais vos marcaram enquanto WHITENOISE?
Pedro: Este ano tocámos pela primeira vez no Neopop em Viana do Castelo. Apesar de já trabalharmos com a Made of You há muitos anos e ter merecido a confiança deles para tocar no Elrow, Brunch, BPM ou eventos do Neopop no Hard Club por exemplo, fazer parte do line up do festival foi de facto muito especial e um dos momentos altos do nosso percurso. Também este ano tocámos pela primeira vez no Lux, ao fim de 12 anos de Whitenoise o que nos deixou muito felizes e foi igualmente um marco.
Mas temos tido um percurso cheio de conquistas que nos orgulham, o Lisb-On ou Moga são alguns exemplos.
Luís: Todos esses marcos que o Pedro falou são de facto importantes, mas destaco também os clubs e promotores nacionais que confiam no nosso trabalho mês após mês, ano após ano. São eles que nos dão palco e visibilidade para conseguirmos “voar mais alto” e alcançar os nossos objectivos. A título pessoal destaco as nossas viagens ao estrangeiro nos últimos meses, Valência, Tbilisi, Lausanne, Nice, Madrid ou Zdar só para nomear algumas e claro os gigs na nossa FAINA que continuam a deixar-nos totalmente realizados e motivados.
Num cenário em que a música electrónica é cada vez mais imediata, como vêem o futuro de propostas centradas na profundidade, no groove e na experiência colectiva?
Pedro: Ao contrário de algumas opiniões mais “ácidas” (risos), eu gosto de ver cada vez mais jovens a consumir música electrónica mesmo que seja um registo mais comercial e totalmente diferente do nosso. Vejo isso como um ponto de entrada para este nosso mundo e que mais tarde ou mais cedo vai despertar curiosidade e necessidade de algo mais profundo, mais intenso, mais genuíno... e quando isso acontecer, estaremos cá nós para colmatar esse desejo.
Luís: Exactamente! Sabemos que o nosso registo é um nicho de mercado mas vivemos bem com isso e foi a opção que decidimos tomar e que verdadeiramente nos apaixona. O House na sua vertente mais underground está para durar e haverá sempre um público ansioso por seguir artistas mais fora da caixa, com uma sonoridade fresca e nova.
A UnderMag agradece aos WHITENOISE pela disponibilidade, pelo tempo e pela forma aberta como partilharam a sua visão sobre música, pista e processo criativo. Num momento em que a cultura electrónica vive entre a velocidade e o excesso de estímulos, projectos como este reforçam a importância da escuta, da profundidade e da ligação genuína entre artista e público. Ficamos atentos aos próximos passos de um projecto que continua a provar que o groove, quando é verdadeiro, atravessa o tempo e o espaço.


