UNDER_SPOTLIGHT: SHEILA

Com mais de duas décadas de experiência na cultura clubbing, Sheila é uma das artistas femininas mais influentes da música eletrónica em Portugal. Descubra sua trajetória e impacto na cena musical.

UNDER_SPOTLIGHT

4/13/20266 min read

Nascida na África do Sul e criada em New York City, foi já em Portugal que descobriu a energia da cultura de clubes e o fascínio pela arte de misturar discos. No final dos anos 90 começou a afirmar-se na cabine, rapidamente conquistando espaço nos principais clubes e festivais underground do país. Em 2001, a nomeação para Best Newcomer pela Dance Club Magazine marcou o início de uma fase de grande visibilidade mediática.

Ao longo do seu percurso levou o seu som a vários palcos internacionais, passando por países como Espanha, Bélgica, Holanda, França, Suíça, Estados Unidos, Canadá e vários territórios africanos, partilhando cabine com alguns dos nomes mais influentes da cena eletrónica global. Paralelamente, construiu também um caminho consistente como produtora, com lançamentos em editoras como Autektone Records, Codex Recordings e Gain Records, além da sua própria plataforma Digital Waves, dedicada à promoção de novos talentos.

Em 2026 inicia um novo capítulo artístico ao abandonar o nome Miss Sheila e assumir simplesmente Sheila uma mudança que simboliza evolução, maturidade e uma nova etapa criativa. Nesta edição do Under_Spotlight, mergulhamos na história, nas influências e na visão de uma artista que continua a deixar uma marca forte na pista e na cultura eletrónica portuguesa.

1. Nasceste na África do Sul, cresceste em Nova Iorque e acabaste por descobrir a cultura de clubes em Portugal. De que forma essas diferentes culturas influenciaram a tua identidade musical?

Cada uma dessas etapas deixou uma marca muito própria em mim. A África do Sul representa as minhas raízes, Nova Iorque trouxe-me uma exposição muito forte à diversidade cultural e musical, e Portugal foi o lugar onde realmente construí a minha identidade artística. Crescer em contacto com realidades tão diferentes deu-me uma abertura natural para ouvir música sem limites, sem preconceitos de género ou formato. Acho que essa mistura ajudou-me a desenvolver uma sensibilidade muito própria, onde a emoção e a energia sempre estiveram acima de tendências momentâneas.

2. Lembras-te do primeiro momento em que percebeste que o DJing podia tornar-se mais do que uma paixão e passar a ser uma carreira?

Sim, lembro-me de sentir isso quando comecei a perceber a ligação real que se criava com o público. No início era puro prazer, pura descoberta, mas houve um momento em que percebi que aquela relação com a pista tinha impacto e que havia uma responsabilidade artística. Quando comecei a receber convites regulares e a sentir que havia uma identidade reconhecida no meu trabalho, percebi que já não era apenas uma paixão, era um caminho.

3. Começaste a tocar no final dos anos 90, numa altura em que a cena eletrónica portuguesa estava a crescer rapidamente. Como recordas essa fase inicial dos clubes e do movimento underground em Portugal?

Foi uma fase muito intensa e muito genuína. Havia uma enorme vontade de construir algo novo e a cena vivia-se com muita verdade. Os clubes tinham identidade própria, havia espaço para arriscar musicalmente e o público estava muito disponível para descobrir. Era uma altura em que tudo parecia nascer em tempo real, sem fórmulas definidas. Essa energia foi muito importante para a minha formação.

4. Foste uma das primeiras mulheres a ganhar grande visibilidade na cabine em Portugal. Sentiste desafios adicionais por seres uma DJ feminina numa indústria historicamente dominada por homens?

Sem dúvida que existiram desafios. Houve momentos em que senti que precisava de provar mais, de forma constante, para ser vista com o mesmo grau de legitimidade. Mas nunca deixei que isso definisse o meu percurso. Sempre preferi que o meu trabalho falasse por mim. Com o tempo, acredito que a consistência e a seriedade acabam por criar respeito.

5. Ao longo da tua carreira passaste por diferentes sonoridades, do house ao techno. Como descreverias hoje a identidade sonora da Sheila em 2026?

Hoje sinto que a minha identidade sonora está mais consolidada e mais consciente. Ao longo dos anos fui passando por diferentes linguagens musicais, e neste momento encontro-me numa fase onde a energia mais próxima do techno surge de forma natural. Procuro construir sets com profundidade narrativa, onde cada momento tem intenção, trabalhando a tensão e a intensidade de forma progressiva, sem perder elegância nem sensibilidade musical. Mas muito honestamente, nunca fui ligada a um só género musical, mas sim ao que gosto e me toca.

6. Já tocaste em vários países e partilhaste cabine com muitos artistas internacionais. Há algum momento ou atuação que guardes como particularmente especial?

Há vários momentos especiais porque cada país e cada público deixam algo diferente. Mas guardo sempre com muito carinho atuações em que senti uma ligação absoluta com a pista. São esses instantes que ficam e felizmente são bastantes,

7. A produção também faz parte do teu percurso desde cedo. Como evoluiu a tua relação com o estúdio ao longo destes anos?

No início o estúdio era sobretudo descoberta e aprendizagem. Hoje é um espaço de construção mais consciente. Há mais clareza no que quero transmitir e mais exigência em cada detalhe. Produzir tornou-se uma extensão natural daquilo que sou enquanto artista.

8. Criaste a tua própria label, Digital Waves. O que procuras quando decides apoiar ou lançar música de novos artistas?

Procuro autenticidade acima de tudo. Mais do que seguir tendências, interessa-me sentir identidade, personalidade e intenção. Quando uma música me transmite algo verdadeiro, isso pesa muito mais do que qualquer fórmula.

9. Depois de tantos anos de carreira, o que continua a dar-te mais adrenalina: o estúdio ou a pista de dança?

São estímulos diferentes. O estúdio é introspectivo, exige foco e paciência. A pista é imediata, viva, imprevisível, sinto sempre uma adrenalina muito especial quando entro em cabine e percebo que posso construir uma viagem emocional em tempo real.

10. Em 2026 decides simplificar o teu nome artístico para Sheila. O que representa esta mudança e que novos projetos podemos esperar desta nova fase?

Representa clareza e alinhamento com quem sou hoje. Foi uma decisão natural, quase inevitável, porque senti necessidade de simplificar e assumir uma identidade mais direta e mais madura. Esta nova fase traz uma visão artística ainda mais definida, novos lançamentos, novos conceitos e uma abordagem muito cuidada em tudo o que está a ser construído.

A UnderMag deixa um agradecimento especial à Sheila Lopes pela generosidade, clareza e profundidade com que partilhou o seu percurso, numa conversa que reflete não só uma carreira sólida, mas também uma visão consciente e madura da cultura eletrónica.

Ao longo de mais de duas décadas, Sheila construiu um caminho feito de consistência, resiliência e autenticidade qualidades que nem sempre se veem, mas que fazem toda a diferença numa indústria em constante transformação. Entre a cabine e o estúdio, entre diferentes países, públicos e fases da música eletrónica, a sua presença manteve-se relevante sem nunca perder identidade.

Esta entrevista não é apenas um olhar sobre o passado, mas também um ponto de partida para o que aí vem. Uma nova fase, mais direta, mais alinhada e, acima de tudo, fiel à essência que sempre a definiu.

O nosso respeito e obrigado por continuares a contribuir para uma cultura mais rica, mais diversa e mais verdadeira.