UNDER_SPOTLIGHT: PEDRO TABUADA

Há percursos que não se constroem à pressa nem à boleia de tendências. Constroem-se com tempo, consistência e uma ligação profunda à música e o de Pedro Tabuada é um desses casos raros. Presente na cena eletrónica portuguesa desde 2001, Pedro afirma-se como uma das figuras mais respeitadas e coerentes do panorama nacional, fruto de uma paixão genuína e de uma curadoria musical rigorosa que se reflete em cada set.

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1/25/20269 min read

Especialista em house e garage, move-se com naturalidade entre groove, alma e técnica, criando narrativas sonoras que respiram história e mantêm a pista num estado de entrega constante. As influências são claras de Kerri Chandler a Little Louie Vega, passando por Jeremy Underground, Frankie Knuckles e Laurent Garnier mas nunca óbvias: estão lá na profundidade, na emoção e na elegância com que constrói cada momento.

Com presença em palcos e eventos de referência como Rock in Rio, Brunch Elektronik, Electro Parade ou Lisboa Parade, e atuações que já o levaram a países como Brasil, Angola, Espanha, Suíça e Moçambique, Pedro deixa sempre uma assinatura inconfundível: groove autêntico e energia honesta. No Porto, é também o rosto por trás das míticas R4W, noites de quarta-feira que se tornaram um verdadeiro ritual underground, e fundador da SUB Music, produtora dedicada à criação de experiências que aproximam artistas e público.

Mais do que um DJ, Pedro Tabuada é um contador de histórias através do som uma força criativa que continua a marcar o presente e a apontar caminhos para o futuro da música eletrónica em Portugal.

Olhando para um percurso que começa em 2001, que momentos sentes que foram verdadeiros pontos de viragem na tua identidade enquanto DJ e curador musical?

Antes de mais, quero agradecer o convite.

Ao longo do meu percurso tentei sempre manter um equilíbrio na minha identidade artística. Mas sendo honesto, em 25 anos de carreira há fases em que te sentes mais confiante e completamente fiel ao teu caminho, e outras em que esse processo é mais desafiante. Faz parte do crescimento, pessoal e artístico.

Dentro dessa já longa caminhada, houve momentos que me deram uma confirmação clara de que a minha insistência musical fazia sentido. Convites para eventos de grande dimensão, como o Rock in Rio ou o Brunch Elektronik, foram sinais importantes de que estava no caminho certo, não como um ponto de chegada, mas como um reconhecimento do trabalho consistente e da visão que sempre procurei manter.

O house e o garage são a base do teu som, mas a forma como os trabalhas revela uma forte carga emocional. O que procuras transmitir a quem está na pista quando constróis um set?

O house e o garage são, de facto, a base do meu som, mas para mim nunca foram apenas géneros. São linguagens emocionais. Quando construo um set, procuro criar uma ligação real com a pista, algo que vá além da técnica ou da tendência do momento.

Toco com alma porque sinto a música de forma muito profunda. Sempre senti. Não sou DJ por ser moda ou circunstância, é uma profissão que escolhi, que respeito e que amo há muitos anos. Essa relação íntima com a música reflete-se naturalmente na forma como conto uma história durante um set.

O que tento transmitir é verdade emocional: momentos de elevação, introspeção, energia e comunhão. Se no fim as pessoas sentirem que viveram algo, e não apenas ouviram música, então sinto que cumpri o meu papel.

As tuas influências vão de Kerri Chandler a Frankie Knuckles ou Laurent Garnier. Como é que essas referências se manifestam hoje no teu som sem caíres na nostalgia?

As minhas influências, como Kerri Chandler, Frankie Knuckles ou Laurent Garnier, nunca me empurraram para a nostalgia, muito pelo contrário. Especialmente figuras como o Kerri ou o Garnier são artistas profundamente atuais, ativos no circuito e em constante evolução. Sempre foram exemplos de como é possível respeitar a história da música eletrónica enquanto se continua a escrevê-la no presente.

Para mim, a música está sempre em mudança, e isso obriga-nos a escutar, a aprender e a adaptar-nos constantemente. As referências dão-te uma base, uma ética e uma forma de estar, mas o som tem de respirar o tempo em que é tocado.

Além desses nomes mais óbvios, revejo-me em muitos outros artistas, de diferentes gerações e geografias. E faço questão de destacar alguns portugueses, como o Miguel Nery ou o Cuba, que admiro genuinamente, acompanho de perto e apoio. São provas de que a cena nacional tem identidade, qualidade e um presente muito vivo.

Ao longo dos anos passaste por grandes palcos e eventos de massas, mas mantiveste sempre uma ligação forte ao underground. Como geres esse equilíbrio entre visibilidade e integridade artística?

Sempre me vi, acima de tudo, como um DJ de clubbing. Os grandes palcos e eventos de massas fazem parte do percurso e trouxeram experiências importantes, mas há algo que para mim é insubstituível, a comunicação direta com o público.

Num clube, consigo sentir a energia, olhar nos olhos de quem está a dançar à minha frente e criar uma ligação real. Essa troca é fundamental para a forma como toco e como construo um set. É ali que a música ganha corpo, intenção e verdade.

Talvez esteja um pouco no sentido oposto da maioria, mas sempre privilegiei a integridade artística em detrimento da visibilidade. E, curiosamente, tenho ouvido essa mesma reflexão da parte de grandes artistas internacionais, alguns dos melhores do mundo, o que me dá um enorme conforto e reforça a convicção de que esse caminho continua a fazer sentido.

No final, é uma escolha consciente: menos espetáculo, mais verdade. É aí que me sinto inteiro enquanto artista.

As noites R4W tornaram-se um verdadeiro ponto de culto no Porto. O que achas que fez com que essas quartas-feiras ganhassem uma identidade tão forte e duradoura?

Quando criei as noites R4W com o Bikas às 4.ªs feiras, ao início muita gente achava que éramos um pouco malucos (risos). Mas nós sentíamos claramente que o Porto precisava de algo mais. Algo que fosse além dos grandes polos habituais e que, à quarta feira, ajudasse a alimentar de forma consistente a dance scene da cidade.

A identidade forte das R4W nasceu, acima de tudo, do trabalho contínuo. Não puxando louros, é o resultado de muito esforço meu e de todas as pessoas que, por muito ou pouco tempo, já fizeram parte do projeto. Cada contributo ajudou a construir o que as R4W são hoje.

Estamos agora a entrar no terceiro ano e a versão 4.0 arranca em fevereiro, com muitas novidades. Isso mostra que a identidade não é algo fechado, é algo vivo, que se renova, mas sem perder a essência que fez com que estas quartas feiras se tornassem um verdadeiro ponto de encontro para quem vive a música de forma genuína.

A curadoria parece ser uma palavra-chave no teu percurso, seja nos teus sets, nas R4W ou na SUB Music. O que é, para ti, uma boa curadoria na música eletrónica?

Para mim, uma boa curadoria começa muito antes da música tocar. É escuta, contexto e responsabilidade. Não se trata apenas de escolher bons nomes ou bons discos, mas de perceber se fazem sentido naquele espaço, naquele momento e para aquela comunidade.

Sempre encarei a curadoria como uma extensão da minha identidade artística. Nos meus sets, nas R4W ou na SUB Music, a preocupação é a mesma, coerência, qualidade e verdade. Prefiro menos hype e mais substância. Menos ruído e mais intenção.

Uma boa curadoria também implica coragem, a coragem de não seguir tendências cegamente, de apostar em artistas que acreditas, de criar narrativas e não apenas alinhar conteúdos. E implica respeito, pela pista, pelos artistas e pela história da música eletrónica.

No fundo, curar é cuidar. Cuidar da música, das pessoas que a vivem e do espaço que lhes é dado para se expressarem. É isso que, para mim, dá longevidade a um projeto e credibilidade a quem o constrói.

Tocar em países como Brasil, Angola, Moçambique ou Suíça trouxe-te perspetivas diferentes sobre a pista e o público. O que aprendeste com essas experiências fora de Portugal?

Tocar fora de Portugal foi, e continua a ser, uma escola constante. E a verdade é que a diversidade de países onde já atuei é hoje bem mais extensa do que aquela que muitas vezes aparece resumida na minha biografia, algo que naturalmente terá de ser atualizado. :)
Cada país, cada cidade e cada pista ensinam algo diferente. Aprendi que a linguagem emocional da música é universal, mas a forma como o público a recebe, a vive e a devolve varia muito. Isso obriga-te a escutar mais, a ser menos automático e a estar verdadeiramente presente.

Essas experiências tornaram-me um dj mais atento, mais sensível à leitura da pista e menos preso a fórmulas. Levas sempre contigo a tua identidade, mas aprendes a adaptá-la sem a perder. No fundo, tocar fora ensinou-me que a conexão vem antes da técnica e que a música, quando é honesta, encontra sempre o seu caminho, em qualquer parte do mundo.

Com mais de duas décadas de carreira, sentes que a tua forma de ler a pista e contar histórias através do som mudou? Em que aspetos és hoje um DJ diferente?

Curiosamente, essa é talvez a área onde menos mudei enquanto artista. A forma de ler a pista foi-se afinando ao longo dos anos, isso vem com experiência, escuta e erro, mas a essência manteve-se intacta.

Nunca levei um set pensado ou pré-definido para tocar. Sempre acreditei que a verdadeira história se escreve ali, no momento, em diálogo com a pista. Nesse sentido, sou hoje muito parecido com o DJ que era há 25 anos, atento, intuitivo e totalmente entregue ao que está a acontecer à minha frente.

O que mudou foi a profundidade da leitura. Hoje percebo mais rapidamente os silêncios, as reações subtis, os momentos certos para arriscar ou para segurar. Mas a filosofia é a mesma: respeito absoluto pela pista e confiança na música. É isso que, para mim, mantém tudo vivo.

Num momento em que a música eletrónica vive entre a velocidade das redes e a lógica do hype, o que consideras essencial para construir um percurso sólido e duradouro?

Num momento em que tudo acontece à velocidade das redes e o hype dita agendas, o mais essencial continua a ser o mais difícil, seres fiel a ti próprio. Não te deixares levar por modas passageiras nem confundir visibilidade com relevância.

Um percurso sólido constrói-se com tempo, coerência e verdade. Não nasce de trends semanais nem de fórmulas copiadas. A pista sente quando alguém está ali apenas para ocupar espaço, e sente ainda mais quando alguém está ali com intenção, identidade e respeito pela música.

Vejo muita gente no circuito por andar, a reagir mais do que a construir. Eu sempre acreditei no contrário, menos pressa, mais profundidade. Menos personagem, mais artista. A longevidade vem de escolhas conscientes, de saber dizer não e de aceitar que nem tudo precisa de ser imediato.

No fim do dia, o hype passa. A integridade fica. E é isso que separa quem está de passagem de quem constrói um caminho.

Quando pensas no futuro, o que ainda te move e desafia enquanto artista e que histórias sentes que ainda estão por contar através da tua música?

O que me move hoje é exatamente o mesmo que me moveu no início, sensação de que ainda há muito por dizer através da música. Vinte e cinco anos de carreira não são um ponto de chegada, são apenas um capítulo.
Enquanto sentir essa inquietação criativa, essa necessidade de comunicar algo verdadeiro à pista, sei que o caminho continua. As histórias que ainda quero contar não estão presas a um formato, a um palco ou a uma fase específica. Estão ligadas ao tempo, à experiência e à forma como a música acompanha a vida.

O futuro, para mim, não é uma meta fechada. É um espaço aberto onde a música continua a evoluir, e onde eu continuo disponível para escutar, sentir e traduzir. Quando deixar de ter algo honesto para dizer através do som, talvez aí faça sentido parar. Até lá, a história está longe de estar completa.

A UnderMag agradece profundamente ao Pedro Tabuada pela disponibilidade, generosidade e honestidade com que partilhou o seu percurso, visão e relação com a música eletrónica. Mais do que uma entrevista, este under_spotlight é um testemunho de integridade artística, consistência e respeito pela pista, pela cultura e pela história que nos trouxe até aqui.

Num tempo marcado pela velocidade e pelo ruído, vozes como a do Pedro lembram-nos que a música continua a ser um espaço de verdade, conexão e intenção. Obrigado por nos lembrares que a eletrónica vive de emoções, de comunidade e de caminhos construídos com tempo.

É um privilégio dar palco a artistas que não seguem tendências, mas constroem identidade.
Obrigado por fazeres parte da história e do presente da música eletrónica em Portugal.