
UNDER_SPOTLIGHT: NOX
No Under_spotlight, conversamos com Nox sobre percurso, identidade sonora, curadoria independente, tecnologia e futuro numa conversa que reflecte mais de duas décadas de dedicação à música electrónica.
UNDER_SPOTLIGHT


Com mais de 25 anos de percurso na música electrónica, Nox, nome artístico de Luís Baptista, é um nome que se afirmou pela consistência, pela independência criativa e por uma ligação profunda à cultura de clube. Longe de tendências efémeras, construiu uma identidade sólida, onde a técnica, a emoção e a leitura da pista caminham lado a lado.
O seu som resulta de uma fusão cuidada de influências, reflectindo uma abordagem aberta e contemporânea à música electrónica. Ao longo da carreira, editou música em editoras de referência internacionais e assinou remisturas para nomes consagrados da cena, consolidando o seu estatuto como produtor atento ao detalhe e à inovação sonora.
Paralelamente ao trabalho enquanto DJ e produtor, Nox tem desenvolvido uma forte actividade editorial e curatorial através da Fuse Records, projecto que espelha a sua visão artística: liberdade criativa, identidade própria e respeito pela essência da música de pista. A editora surge como extensão natural do seu percurso, funcionando como plataforma para explorar sonoridades sem compromissos e para dar voz a uma estética coerente e autoral.
Com actuações em vários países e presença em eventos internacionais de relevo, Nox continua a afirmar-se como um artista inquieto, ligado à tecnologia e à evolução da cena electrónica, mantendo sempre uma abordagem honesta e focada na experiência colectiva da pista de dança.
1. Mais de 25 anos ligados à música electrónica é um marco importante. Quando olhas para trás, que fases da tua carreira sentes que foram decisivas para chegares até aqui?
Se olhar para trás, acho que houve duas ou três alturas em que tudo encaixou. A primeira foi quando percebi que não queria só tocar faixas “boas” - queria construir um caminho para a pista, com princípio, meio e fim. A segunda foi levar o estúdio a sério, porque senti que o som que eu tinha na cabeça não cabia só nos sets. E outra fase importante foi aprender a escolher melhor: menos ansiedade, mais critério. Com os anos, aprendi uma coisa simples: a carreira também se produz escolher bem é parte do som.
2. O teu som sempre se caracterizou por uma fusão de influências e por uma forte carga emocional. Como defines hoje a identidade musical do Nox?
Hoje sinto que a minha identidade é muito isso: energia com emoção. Posso ir para um lado mais hipnótico e mais duro, mas gosto sempre que exista ali qualquer coisa que te agarre - uma tensão, uma atmosfera, um detalhe melódico. No fundo, eu quero que a música tenha impacto na pista, mas que também tenha “peso” por dentro.


3. Ao longo do tempo lançaste música em várias editoras e tiveste a oportunidade de remixar nomes de peso da indústria. O que procuras num projecto antes de dizeres “sim”?
Honestamente? Procuro sentir que faz sentido. Não só a música, mas o contexto: com quem é, como é trabalhado, onde vai sair. E depois há outra coisa: eu preciso de ter espaço para fazer à minha maneira. Se sinto que vou ficar preso a expectativas ou a fórmulas, prefiro não avançar.
4. Actuaste em diferentes países e em eventos de grande dimensão. De que forma essas experiências internacionais moldaram a tua forma de construir um set e de comunicar com a pista?
Tocar fora ensina-te muito porque te obriga a sair do piloto automático. Cada lugar tem um ritmo próprio e uma forma diferente de reagir. Isso fez-me melhorar a leitura de pista e a construção do set: saber quando empurrar, quando segurar, quando deixar respirar. E também te dá humildade - porque nem sempre a tua ideia inicial é a melhor para aquele momento.


5. A tecnologia tem sido uma presença constante no teu percurso. Como encaras o papel da inovação tecnológica no processo criativo de um DJ e produtor nos dias de hoje?
A tecnologia sempre esteve lá, e eu gosto dessa evolução. Mas vejo-a como ferramenta. Ajuda-me a experimentar, a esculpir som, a chegar a detalhes que antes eram muito mais difíceis. Ao mesmo tempo, hoje há tanta coisa disponível que o desafio é manter o foco: não é ter mais opções, é saber o que queres dizer.
6. A Fuse Records tem sido um projecto importante no teu percurso, tanto a nível artístico como curatorial. Como nasceu a editora e que visão procuras preservar nela em termos de som, identidade e liberdade criativa?
A Fuse nasceu de uma necessidade simples: ter uma casa onde os eventos e a música pudesse existir com identidade e liberdade, sem compromissos desnecessários. Em termos de visão, toda equipa e eu tentamos preservar isso: curadoria com carácter, espaço para risco, e respeito pelo lado artístico.
7. O equilíbrio entre vida pessoal e carreira artística nem sempre é simples. De que forma a família influencia a tua abordagem à música e ao processo criativo?
A família muda-te a cabeça - no bom sentido. Dá-te equilíbrio e obriga-te a gerir tempo e prioridades de outra forma. E isso reflecte-se na música: ficas mais focado, mais directo, menos disperso. E a parte emocional… quer queiras quer não, acaba sempre por entrar no processo.


8. A cena electrónica mudou profundamente desde o início da tua carreira. O que sentes que se ganhou e o que eventualmente se perdeu ao longo destas décadas?
Ganhou-se muito: acesso, qualidade de produção, mais gente a criar e a descobrir música. Mas às vezes sinto que se perdeu paciência - para deixar uma noite crescer, para um set ter tempo, para uma faixa “assentar”. Há uma pressa constante hoje. Nem sempre é mau, mas muda a profundidade de algumas coisas.
9. Quando entras em estúdio, partes mais da experimentação livre ou chegas já com uma ideia muito concreta do que queres desenvolver?
Depende do dia. Muitas vezes começo por exploração: um groove, uma textura, um som que me puxa. Outras vezes entro com uma ideia clara - “quero algo mais profundo”, “quero algo mais directo”. Mas tento deixar sempre margem para a música me surpreender, porque é aí que aparecem as coisas melhores.
10. Olhando para o futuro, o que podemos esperar do Nox: novas edições, colaborações, reforço do trabalho editorial ou simplesmente continuar a contar histórias pista a pista?
Continuar a fazer o caminho com consistência. Novas edições, sim, e colaborações quando fizerem sentido - sem forçar. E continuar a trabalhar a Fuse com a mesma ideia: identidade, liberdade e cuidado. No fim do dia é isso: continuar a contar histórias, uma pista de cada vez.
A UnderMag agradece ao Nox a disponibilidade, a clareza e a honestidade ao longo desta conversa.
Este Under_spotlight reflecte um percurso construído com critério, identidade e uma ligação profunda à cultura de pista. A visão independente que atravessa o seu trabalho enquanto DJ, produtor e curador, materializada também na Fuse Records, reforça a importância de projectos que colocam a música e a liberdade criativa no centro.
Desejamos que os próximos passos do seu caminho continuem a ser guiados pela mesma consistência e consciência artística, uma pista de cada vez.
