
UNDER_SPOTLIGHT: MIGUEL RENDEIRO
Miguel Rendeiro é o convidado desta edição do Under_Spotlight da UnderMag. Uma entrevista exclusiva sobre mais de 25 anos de carreira na música electrónica, produção, DJing e cultura clubbing.
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Falar de Miguel Rendeiro é falar de consistência, visão e entrega total à música electrónica. Com mais de 25 anos de percurso, o seu nome confunde-se com a própria evolução da cultura clubbing em Portugal, atravessando diferentes gerações, espaços e linguagens sonoras sem nunca perder identidade. DJ, produtor, promotor e curador de experiências, Rendeiro construiu uma carreira assente não em modas passageiras, mas numa leitura profunda da pista de dança e na capacidade rara de criar ligação emocional através do som.
Do underground aos grandes festivais, dos clubes intimistas às manhãs longas de festival, a sua presença atrás dos decks é marcada por uma abordagem fluida, onde o house e o techno se cruzam com elementos de funk, deep, electro e minimal. Mais do que géneros, Miguel trabalha estados de espírito — cada set é pensado como uma narrativa, moldada em tempo real pela energia do público e pelo momento.
Enquanto produtor, a sua música encontrou casa em algumas das mais respeitadas editoras internacionais, com destaque para a Get Physical Music, confirmando um percurso sólido e reconhecido além-fronteiras. Paralelamente, a criação e mentoria de projetos e eventos icónicos — com especial destaque para o NEOPOP Music Festival — reforçam o seu papel enquanto agente ativo na construção da cena electrónica nacional.
Sempre em movimento e sem nostalgia pelo passado, Miguel Rendeiro continua focado na exploração de novas ideias, novas sonoridades e novas formas de viver a pista de dança. Neste Under_Spotlight, mergulhamos na mente e no percurso de um artista que entende a música electrónica como um organismo vivo, em constante transformação.
1. Olhando para mais de 25 anos de carreira, como é que a tua relação com a música eletrónica evoluiu desde os teus primeiros sets até hoje?
Em 2026 completo 30 anos como DJ. A minha relação com a música evoluiu imenso — e os tempos também mudaram muito. Comecei no final dos anos 90 como DJ residente, a tocar noites inteiras das 22h às 6h ou 7h da manhã, passando por vários estilos: pop, pop-rock, funky, disco… e o house, que surgia sempre mais tarde. Com o tempo, sinto que o meu ouvido se refinou e que o meu nome me deu liberdade para arriscar mais e aprofundar os meus próprios gostos musicais. Isso permitiu-me apresentar ao público música nova, novas tendências e até aquilo que acredito ser o futuro. A música muda, nós mudamos com ela — mas a paixão fica sempre no mesmo lugar. Continuo a adorar o que faço e sou completamente viciado no DJing. Fora da cabine sou como peixe fora de água.
2. A tua discografia atravessa house, techno, funk, deep, electro e minimal. Como defines o teu som sem te restringires a um género específico?
Sempre fui um DJ que soube ler a pista e adaptar-me ao local, ao público e ao line-up — sem nunca perder a minha identidade. Faço sempre uma leitura da pista e percebo para que lado devo ir. Um DJ set de início de noite ou um warm-up é completamente diferente de um set de peak time. O mesmo se aplica aos espaços: é muito diferente tocar num bar mais cool e intimista como a Casa do Livro, num evento cool como a Bloom, ou fazer um set enérgico numa RDZ ou num Brunch Electronik. O estilo é a bússola, mas a pista é quem dita o caminho. Cada noite ou cada evento é único. Mas também é verdade que, às vezes, conseguimos nós próprios ditar e mudar o rumo. Sempre estive atento e acompanhei as tendências, sem nunca ficar desatualizado ou ultrapassado.
3. Produzir e DJing são duas faces da mesma moeda. Como equilibras estas duas paixões e de que forma cada uma influencia a outra?
Vejo-as como complementares. Sempre preferi o DJing ao estúdio, porque adoro o convívio e a interação com as pessoas. Sou uma pessoa social — adoro estar com os meus e fazer novos amigos. A produção complementa essa parte: permite-me mostrar algo realmente meu e abrir portas para outros palcos. Hoje em dia, por exemplo, é super importante estar presente em plataformas como o Spotify. Também é na produção que nos podemos tornar imortais e deixar o nome na história. Na produção, para mim, varia muito com o próprio espírito do momento, com as tendências ou — muitas vezes — com o acaso. Acontece-me estar a trabalhar numa direção e, de repente, surgir um som que muda completamente a música. Ou até estar no estúdio com amigos, a brincar, e surgir algo cool. No estúdio descobrimos quem somos; na pista descobrimos para quem somos.
4. Quando estás num clube ou festival, como percebes e moldas a energia do público durante o teu set?
Como disse antes, não sou do estilo “quero, posso e mando”. Respeito muito o horário, os DJs com quem partilho cabine, o tipo de cartaz e, claro, o público. Dentro da minha linha, posso ir para algo mais house e melódico ou para algo com mais energia dentro do tech house e do tech. É uma questão de sentir a vibração e devolver essa energia. Um DJ não controla a pista — conversa com ela.
5. Criaste e promoveste muitos conceitos de festa em Portugal. Qual é a filosofia por trás desses projectos?
É verdade, já criei muitos projectos — e sinto que alguns até foram vanguardistas para a altura. O meu primeiro grande evento foi uma festa com os Tiefschwarz no HIT Club, na Póvoa de Varzim. Depois, a Azurara trouxe um novo conceito de beach party e sunset. A Black Room apresentou um conceito club 360º, que misturava tecnologia, vídeo e música. O Neopop foi, provavelmente, o maior desafio: o meu primeiro festival de três dias, com números que impressionavam e também assustavam. Não havia fundos nem investidores. Houve também riscos — como o Energie Vilar de Mouros, arrasado por uma tempestade, que mudou a minha vida. Foi aí que decidi deixar eventos gigantes e focar-me em projectos mais pequenos, cool e intimistas, como os Domingos no Forte de S. João com a RDZ, ou o Assalto ao Arranha-Céus, um rooftop inovador na altura. Sem uma bola de cristal, achei que estava a tomar a decisão certa. Hoje percebo que era simplesmente o caminho que tinha de percorrer. Criar é arriscar. Nem sempre vencemos — mas aprendemos sempre. Nos dias de hoje, é muito importante para os DJs terem os próprios eventos, pois o mercado vive de trocas. Nem sempre é a música, mas sim o que podes dar em troca.


6. Qual foi o remix mais desafiante ou memorável que já fizeste, e porquê?
Gosto muito de fazer remixes. Já tive convites da Get Physical para remisturar o clássico So In Love With You e também os icónicos Kult of Krameria. Um dos remixes de que mais gostei — tanto do processo como do resultado — foi para a Brise Records, com o tema Elisea. Mais recentemente, tenho feito muitos edits e remixes de faixas icónicas que adoro, dando-lhes o meu toque e a minha visão. Com o lançamento da minha própria editora, Connect, vou começar a lançar algumas dessas versões.
7. Olhando para a cena eletrónica portuguesa, que mudanças significativas observaste e onde vês espaço para inovação?
Houve mudanças enormes no panorama da música eletrónica. O underground tornou-se um nicho ainda mais pequeno. Os fenómenos do mainstream e os “TikTok hits” trouxeram a música eletrónica de volta à rádio e aproximaram o público mais jovem. Os clubes atravessam uma fase complicada: os eventos e festivais dominaram a atenção. As pessoas procuram experiências — locais diferentes, ambientes instagramáveis… já não é só música. É um conjunto de factores. E o Instagram mudou tudo. Continua a haver eventos mais “puristas”, mas são menos e vivem numa bolha de trocas e permutas. Hoje a música vive com a imagem — mas continua a nascer do som.
8. O que consideras essencial para manter a inspiração enquanto produtor?
Hoje em dia, sou muito inspirado por DJs e produtores que não conheço. Sempre que estou num evento com outros artistas ou saio com amigos, volto com vontade de ir para o estúdio. Não vivo do passado — procuro sempre o futuro. Vejo muitos documentários de artistas dos anos 80 e 90, cuja forma de vencer é incrivelmente inspiradora. Mas também adoro descobrir novas sonoridades, novos grooves e artistas que nunca ouvi. A inspiração vive no contraste entre o que já ouvimos e o que ainda não existe.
9. Tens actuado em clubes icónicos. Há alguma performance que consideres um ponto de viragem?
Há vários momentos importantes na minha vida e carreira, dos quais não me esqueço. A primeira discoteca (Alfândega e Prosak, em Caminha). O verão que passei como DJ residente do HIT no Pacha de Ofir foi, talvez, a primeira grande montra. O Astoria Club, em Braga, e o Estado Novo, no Porto, levaram-me até lá. As minhas residências na Vogue e na Indústria, no Porto, deram-me liberdade para crescer, construir e afirmar o meu estilo musical. A minha passagem pela OFIR Prod, onde estavam DJs como Rui Vargas, Yen Sung, To Ricciardi ou Freshkitos — artistas que admirava — foi outro marco e deu-me um selo de qualidade. A Azurara Beach Party e o Neopop posicionaram-me como produtor de eventos, apesar de eu não ter explorado tudo o que podia na altura. Nunca vou esquecer lugares como o Watergate e o Kater Club e Chalet, em Berlim; o The Egg, em Londres; o City Hall e o Macarena, em Barcelona; o Baron, em Miami; o Lux, em Lisboa; as sempre loucas passagens por Ibiza; e eventos como CircoLoco, United Tomorrowland, Brunch, ELROW, BPM, Rock in Rio ou Creamfields. Hoje, o Bloom Fest, o Brunch Electronik, a RDZ e também o 7 Wonders têm sido as minhas maiores montras para conquistar novas gerações e consolidar a minha carreira e sonoridade — em Portugal e com reflexos para o mundo. Este ano faço também a minha estreia no Brasil, na passagem de ano, com a Bloom em Angra dos Reis.
10. Que conselho darias a quem quer seguir os teus passos?
Hoje é muito mais fácil ganhar visibilidade — a tecnologia abriu muitas portas. Mas a música deve ser sempre o foco principal. O meu conselho: apostem na música de que realmente gostam, criem identidade, produzam e respeitem toda a gente. O sucesso dos outros DJs e eventos ajuda toda a comunidade a crescer. Tem de haver alma no que fazemos. Autenticidade não se compra — cria-se. Respeito e consistência são mais valiosos do que qualquer hype. A música deu-me um caminho, mas foram as pessoas que encontrei nele que lhe deram sentido. Depois de 30 anos a viajar por pistas de dança, continuo a acreditar no mesmo: a verdadeira energia nasce quando a música nos conecta. Se existe um segredo para durar tanto tempo neste mundo, é simples: nunca perder a paixão — e continuar a tocar como se fosse sempre a primeira vez. Por trás de cada set meu está a força da minha família e amigos. Eles seguram o que eu não posso segurar, apoiam o que eu sonho e aceitam os sacrifícios para que eu continue a fazer o que amo.
A UnderMag agradece a Miguel Rendeiro pela disponibilidade, partilha e visão ao longo desta conversa. Mais do que uma entrevista, este Under_Spotlight reflete um percurso feito de paixão, consistência e compromisso com a música electrónica enquanto cultura e linguagem universal. Obrigado por continuares a inspirar pistas de dança, artistas e gerações, sempre com os olhos postos no futuro.
