
UNDER_SPOTLIGHT: MÃO
Num panorama onde a música eletrónica se reinventa a um ritmo constante, há encontros que não vivem da nostalgia, mas sim da necessidade de criar algo novo. É nesse território que nasce MÃO, o projeto que junta DJ Vibe e Paulo Pedro Gonçalves, dois nomes com percursos marcantes e complementares na música feita em Portugal.
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A génese do projeto remonta a 2023, após o reencontro no contexto dos LX-90, mas rapidamente ganhou identidade própria. Mais do que uma continuação, MÃO afirma-se como uma rutura consciente, um espaço criativo onde a eletrónica se cruza com instrumentação orgânica, sem a pressão de tendências ou fórmulas pré-definidas. A intenção é clara desde o início: liberdade total para explorar som, textura e linguagem.
O resultado traduz-se numa abordagem que recusa rótulos fáceis. Entre a experiência acumulada ao longo de mais de três décadas e uma visão contemporânea da produção musical, MÃO constrói um discurso que é simultaneamente intuitivo e global. Um projeto onde as influências não são impostas, mas surgem de forma natural, acompanhando a evolução de cada tema e dando origem a uma narrativa orgânica.
Num momento em que a tecnologia acelera processos e multiplica possibilidades, esta colaboração destaca-se pela forma equilibrada como conjuga técnica, sensibilidade e identidade artística. Sem olhar para o mercado como ponto de partida, MÃO posiciona-se como um reflexo autêntico de dois criadores que continuam em movimento.
Nesta edição do Under Spotlight, fomos perceber como nasceu este projeto, como se desenvolve o seu processo criativo e o que podemos esperar desta nova fase, tanto em estúdio como em palco.
1 – O projeto MÃO junta duas trajetórias muito distintas. Como surgiu este reencontro criativo e em que momento perceberam que fazia sentido transformá-lo num projeto concreto?
Paulo Pedro Gonçalves – Em 2023, os LX-90 voltaram a juntar-se para gravar um novo single e para fazer um espectáculo no festival Super Bock Super Rock. Os LX-90 acabaram e os Mão começaram.
DJ Vibe – O projeto foi pensado em concreto desde o início, com a intenção de misturar instrumentos mais tradicionais com a eletrónica, criando assim um espaço onde podemos fazer exatamente o que nos apetece, sem seguir qualquer tendência musical. A ideia deste projeto surgiu logo após a edição do meu álbum Frequências. Falei com o Paulo sobre aquilo que tinha em mente, ele gostou da proposta e foi assim que tudo começou.
2 – Trabalhar juntos mais de três décadas depois dos primeiros cruzamentos traz inevitavelmente uma nova perspetiva. De que forma o tempo e a experiência moldaram esta colaboração?
Paulo Pedro Gonçalves – Penso que as três décadas deram-nos uma maior maturidade musical e uma forma mais relaxada e eficaz criativa.
3 – O vosso som mistura eletrónica com elementos orgânicos e influências de diferentes geografias. Como definem a identidade sonora de MÃO?
Paulo Pedro Gonçalves – Mão é um som global.
4 – O álbum propõe uma viagem global, tanto musical como conceptual. Qual foi o ponto de partida para construir esta narrativa?
Paulo Pedro Gonçalves – À medida que os temas foram aparecendo e evoluindo, construíram por si próprios esta narrativa.
5 – No processo criativo, como equilibram as vossas referências individuais com a construção de uma linguagem comum?
Paulo Pedro Gonçalves – Foi fácil e natural. Ambos temos gostos musicais vastos e diversos.


6 – Há algum elemento ou detalhe específico que cada um de vocês trouxe para MÃO que consideram essencial para o som final do projeto?
Paulo Pedro Gonçalves – Cada um trouxe a sua percepção de forma
DJ Vibe – Para mim, o elemento essencial e que pode vir a ser um fio condutor são as guitarras do Paulo.
7 – Vivemos uma fase de transformação na música eletrónica. Que leitura fazem do estado atual da cena, tanto em Portugal como a nível internacional?
DJ Vibe – Sempre vi a música eletrónica como algo em constante transformação. Quanto à cena atual, nunca houve tanta música a ser editada como agora, tanto em Portugal como a nível internacional.
8 – A tecnologia tem vindo a alterar profundamente a forma como se cria música. De que forma isso influencia ou desafia o vosso processo criativo?
Paulo Pedro Gonçalves – Facilita a composição, gravação e edição.
DJ Vibe – De muitas formas. Diria que, sobretudo no processo criativo e na programação, é incrível perceber os resultados surpreendentes que se podem alcançar. Também no processo de gravação, a tecnologia tem um papel fundamental, elevando-nos para outros patamares de criação.
9 – MÃO assume-se como um projeto que cruza géneros e foge a rótulos evidentes. Sentem que hoje existe mais liberdade para criar fora de categorias ou ainda há limitações no mercado?
Paulo Pedro Gonçalves – Não fazemos música para mercados.
DJ Vibe – Sim, é verdade que hoje qualquer pessoa pode gravar e editar aquilo que quiser. Tornou-se muito mais simples colocar música no mercado. Há mercado para todos.
10 – Olhando para o futuro, o que podemos esperar de MÃO nos próximos tempos, tanto em termos de lançamentos como de experiências ao vivo?
Paulo Pedro Gonçalves – Mão vai estrear-se ao vivo no outono e já estamos a trabalhar no próximo disco.
A UnderMag agradece a disponibilidade e a abertura de DJ Vibe e Paulo Pedro Gonçalves por partilharem connosco não só a origem de MÃO, mas também a visão e o pensamento que sustentam este novo capítulo.
Mais do que um simples encontro entre dois percursos marcantes, este projeto revela uma abordagem madura, livre e consciente sobre o que significa criar música hoje. Entre a experiência acumulada e a vontade de explorar novos caminhos, MÃO surge como um reflexo autêntico de uma identidade artística que não se limita a géneros, nem a expectativas externas.
Numa altura em que a produção musical é cada vez mais imediata e massificada, é particularmente relevante destacar projetos que valorizam o processo, a intenção e a construção de uma linguagem própria. É precisamente aí que MÃO se posiciona, não como resposta ao mercado, mas como expressão natural de dois criadores em constante evolução.
Ficamos atentos aos próximos desenvolvimentos, tanto em estúdio como ao vivo, certos de que este é apenas o início de um percurso que ainda tem muito para revelar.
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