
UNDER_SPOTLIGHT: HUMA-NOYD
Huma-Noyd é um dos nomes mais consistentes da música eletrónica nacional, com um percurso que atravessa décadas sem nunca perder identidade. Nesta edição do Under Spotlight, exploramos a sua trajetória dos primeiros live acts em Portugal aos palcos internacionais numa conversa sobre evolução, autenticidade e cultura de pista.
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Num universo onde as tendências surgem e desaparecem à velocidade de um drop, há artistas que escolhem um caminho mais raro o da consistência e da identidade. Huma-Noyd é um desses nomes.
Com raízes nos anos 90, o projeto de Mário Henriques construiu um percurso sólido dentro da música eletrónica, sempre fiel a uma visão própria e imune a modas passageiras. Entre o Techno, o Progressive e uma estética assumidamente underground, o seu som evoluiu sem nunca perder essência.
Ao longo das décadas, marcou presença em alguns dos palcos e clubes mais respeitados da cultura eletrónica do Tomorrowland ao Awakenings, passando por espaços icónicos como Tresor (Berlim), Fabrik (Madrid), U60311 (Frankfurt), Florida 135 e Smart Bar (Chicago). Lugares onde a exigência é máxima e onde só a autenticidade sobrevive.
Num cenário cada vez mais dominado por fórmulas previsíveis, Huma-Noyd destaca-se como um dos nomes que construiu a sua trajetória com base na verdade artística e na consistência. Mais do que um percurso, é um testemunho de longevidade e de uma ligação genuína à cultura de pista.
Nesta edição do Under Spotlight, mergulhamos numa conversa que atravessa décadas de música eletrónica, explorando momentos-chave, evolução artística e a visão de um artista que continua a fazer do presente uma extensão natural do seu caminho.


1. A tua jornada na música eletrónica começa nos anos 90. Olhando para trás, quais foram os momentos-chave que definiram o teu som?
A minha ligação à música eletrónica começou muito cedo. Ainda em criança, através do meu irmão, já me fascinavam as sonoridades eletrónicas, o disco sound, o breakdance e toda essa cultura ligada à música e à expressão urbana. Mais tarde, e ainda muito novo, conheci Sérgio Barbosa na escola, com apenas 10 anos, uma pessoa muito importante no meu percurso e essencial numa fase inicial da criação do projeto Huma-Noyd. Na adolescência comecei a descobrir música de forma mais intensa. Ouvia importações vindas de Inglaterra, seguia o programa 4º Bairro, lançado em 1990 na Rádio Comercial, e absorvia tudo o que estivesse ligado à música eletrónica em geral, mas sempre com particular atenção ao Techno. Nessa fase, a minha paixão pela música eletrónica era tão grande que participei em vários concursos e campeonatos nacionais de dança ligados à dance music, chegando inclusive a vencer alguns. Foi também aí que comecei a pensar: gosto tanto deste tipo de som,como será que isto se faz? Essa curiosidade levou-me, juntamente com Sérgio Barbosa, a dar os primeiros passos na criação das nossas produções musicais em 1993. Outro momento marcante foi ver as festas MAYDAY através do antigo canal de televisão alemão VIVA. A energia desses eventos impressionava-me muito, e Carl Cox tornou-se uma referência clara a partir desse momento. Foi uma fase decisiva, onde essa paixão começou a ganhar forma mais séria. Mais tarde, em setembro de 1995, nasceu oficialmente o projeto Huma-Noyd em formato live act, algo raro em Portugal na altura. Nessa fase surgiu também o Saraiva, que teve um papel importante ao incentivar a união de ideias e energias num primeiro momento do projeto, numa curta, mas marcante colaboração ao vivo, assumindo a componente vocal e o rap nas atuações. Pedro Manafaia juntou-se ao projeto e teve também um papel importante, integrando o percurso durante cerca de quatro anos. Mais tarde, como acontece em muitos percursos, surgiram mudanças naturais e acabei por assumir o projeto a solo. Já lá vão 27 anos desde essa fase, mantendo o Huma-Noyd ativo até aos dias de hoje. Desde o início, trabalhar ao vivo com máquinas ajudou-me a construir uma identidade própria, sem seguir tendências.
2. A atuação no Neptunus Music Festival e a entrada na X-Club marcaram o início de uma nova fase. Que memórias guardas dessa altura?
Como a própria pergunta refere, o Neptunus Music Festival e a entrada na X-Club marcaram claramente o início de uma nova fase no meu percurso. A partir desse momento, o nome Huma-Noyd começou a ganhar projeção a nível nacional de forma muito rápida. A memória mais forte dessa altura continua a ser precisamente a atuação no Neptunus Music Festival, em Albufeira, nos dias 2 e 3 de agosto de 1997. Para a época, era um evento gigantesco, com cinco tendas, dezenas de artistas internacionais e vários nomes portugueses, algo realmente marcante para a cena nacional. A nossa atuação estava inicialmente marcada para as 20h, mas devido à dimensão do evento houve alguns atrasos e acabámos por entrar perto da meia-noite. No final, isso acabou por jogar a nosso favor, porque já havia muito mais público no recinto. Também é importante lembrar que Huma-Noyd era um live act, algo pouco comum em Portugal naquela altura. Entrávamos em palco com sintetizadores, computadores, samplers e máquinas, o que fazia com que muitas pessoas nos vissem como algo diferente, quase extraterrestre, pela forma como trabalhávamos ao vivo. Assim que começámos a tocar, sentiu-se logo uma ligação muito forte com o público. Ainda na transição para a segunda música, a reação foi imediata e a tenda da X-Club encheu por completo. A partir daí criou-se uma energia especial e essa pista manteve-se cheia até ao final do festival. Foi um daqueles momentos em que percebes que algo mudou. Tanto assim foi que Nuno Carvalho, fundador da X-Club, acreditou no projeto e, cerca de duas semanas depois, estávamos a assinar contrato com a agência. Guardo essa fase com enorme carinho, porque foi o momento em que deixámos de ser apenas um projeto com visão e passámos a ser uma realidade dentro da música eletrónica em Portugal. A entrada na X-Club abriu também portas para atuar em muitos dos espaços mais emblemáticos do país, marcando uma fase de enorme crescimento.


3. Sempre foste um artista que evita seguir tendências comerciais. Num mercado cada vez mais formatado, isso tornou-se mais difícil com o passar dos anos?
Hoje existe um mercado mais rápido, mais imediato e muitas vezes mais formatado. As tendências nascem e desaparecem com enorme velocidade, e existe uma pressão constante para seguir fórmulas que aparentemente funcionam no momento. Mas sempre vi a música como expressão e não como moda. Quando segues apenas tendências, corres o risco de perder identidade e de te tornares apenas mais um no meio de tantos. Preferi sempre seguir o meu caminho e respeitar a minha visão. Pode ser um percurso menos imediato, mas é mais sólido e verdadeiro. As modas passam. A identidade fica.
4. A tua entrada na Kne’deep, pela mão do DJ Rush, levou-te a palcos como o Tomorrowland e o Awakenings. Como foi essa transição para uma escala internacional?
Foi uma fase muito marcante. Em 2011, o convite do DJ Rush para integrar a Kne’deep representou reconhecimento por muitos anos de trabalho e consistência. Entrar na Kne’deep abriu portas importantes e levou-me a palcos como Tomorrowland e Awakenings, onde o nível de exigência é muito alto. Também me deu a oportunidade de editar vários EPs pela Kne’deep Records, editora de DJ Rush, em formatos vinil, CD e digital, algo muito importante no meu percurso. Foi especial perceber que a música que sempre defendi funcionava em diferentes contextos e públicos. Ao longo desse percurso tive também a oportunidade de atuar em cerca de 13 países, incluindo os Estados Unidos, com passagem pelo mítico Smart Bar em Chicago. Destaco ainda o facto de ter sido o primeiro e único artista português a atuar em quatro edições consecutivas do Tomorrowland, um dos maiores festivais de música eletrónica do mundo, algo que guardo com enorme orgulho. Acima de tudo, foi uma fase de crescimento artístico e pessoal.


5. Já tocaste em clubes icónicos como Tresor ou Fabrik. Existe uma diferença real na energia e cultura desses espaços comparado com outras pistas?
Sim, existe uma diferença real, e sente-se assim que entras nesses espaços. Clubes como Tresor ou Fabrik não são apenas locais onde acontecem festas, são lugares com identidade, história e uma ligação profunda à cultura eletrónica. No caso do Tresor, por exemplo, existe uma herança muito forte ligada às raízes do techno europeu. Sentes respeito pela música, pelo ambiente e por tudo o que aquele espaço representa. Há uma intensidade especial na pista e uma ligação muito genuína entre artista e público. Já o Fabrik tem uma escala impressionante e uma energia mais explosiva. É um clube com grande impacto sonoro, excelente produção e um público extremamente apaixonado, que vive cada momento com muita entrega. Mas, acima de tudo, o que distingue estes espaços é a cultura. O público não está ali apenas para sair à noite, está ali pela música, pela experiência e pela conexão com aquilo que está a acontecer na cabine. Claro que também em Portugal tive o privilégio de atuar em alguns dos espaços mais icônicos da cena nacional, como Kadoc, Pacha Ofir, Rock’s, Alcântara-Mar, Kremlin, Indústria, Elektro Parade, Castelo de Mourão ou Castelo de Montemor-o-Velho, entre muitos outros. Quero com isto dizer, que existem pistas incríveis em muitos países, e Portugal também tem público de enorme qualidade. Mas clubes icónicos carregam algo extra: história, exigência e uma atmosfera que se sente desde o primeiro minuto. Quando tocas nesses lugares, percebes imediatamente porque marcaram gerações.
6. Partilhaste cabine com nomes como Carl Cox, Adam Beyer ou Dave Clarke. Que impacto tiveram essas experiências no teu crescimento artístico?
Tiveram grande impacto. São artistas que marcaram a história da música eletrónica e aprender ao lado deles é sempre enriquecedor. Percebi de perto a importância da técnica, da leitura de pista e da presença em palco. Mas também confirmou algo em que sempre acreditei: talento sem identidade não chega. Ao mesmo tempo, estar nesses contextos elevou naturalmente a minha fasquia. Fez-me querer evoluir mais, ser mais exigente comigo próprio e continuar a crescer sem perder a minha essência. No final, mais do que partilhar cabine com grandes nomes, o verdadeiro valor esteve em aprender com eles e transformar essa inspiração em evolução pessoal e artística.
7. Tens várias labels no teu percurso: Monophonik, Good Time Records, Conforme e Outset. O que procuras hoje num artista quando decides lançar música?
Procuro identidade acima de tudo. Hoje há muita música bem produzida, mas nem sempre com personalidade. O que me chama a atenção é quando ouço algo e sinto verdade. Gosto de artistas que arriscam, que têm visão própria e não seguem apenas tendências. Entre uma faixa perfeita e sem alma, ou uma faixa com carácter, escolho sempre a segunda.


8. O projeto H&R Joint com DJ Rush mostrou uma forte ligação criativa. Esse tipo de colaboração ainda faz sentido no contexto atual da cena?
Sim, continua a fazer sentido. Quando existe respeito mútuo e uma ligação criativa real, as colaborações mantêm valor. O H&R Joint nasceu dessa química e dessa vontade de criar algo diferente. Hoje há muitas colaborações pensadas para impacto rápido, mas as que ficam são as que têm verdade e acrescentam algo à música.
9. A cena Techno mudou muito desde os anos 90 até hoje. O que sentes que se ganhou e o que se perdeu nesta evolução?
Ganhou-se muita coisa. Hoje existe uma dimensão global que antes era impensável. A música chega a todo o lado, há mais acesso a tecnologia, melhores ferramentas de produção, mais informação e oportunidades para artistas de diferentes países mostrarem o seu trabalho. Também se ganhou diversidade. O techno expandiu-se para várias correntes e interpretações, o que trouxe novas linguagens e abriu portas a novas gerações. Mas, ao mesmo tempo, também se perdeu alguma coisa pelo caminho. Nos anos 90 havia mais descoberta, mais risco e uma ligação muito crua entre artista, pista e música. Nem tudo passava pela imagem ou pelos números. Muitas vezes importava mais a experiência do que a exposição. Hoje existe uma velocidade enorme, muita pressão por resultados imediatos e alguma tendência para uniformizar sons e comportamentos. Isso pode tirar identidade e profundidade a certos projetos. Ainda assim, continuo otimista. A essência do techno nunca desaparece. Sempre existiram modas à volta da cultura, mas a verdade encontra sempre espaço para sobreviver. E enquanto houver artistas e público que vivam isto de forma genuína, a chama continua acesa.
10. Depois de tantos anos, o que ainda te motiva a subir a uma cabine e o que podemos esperar de Huma-Noyd no futuro próximo?
O que me motiva continua a ser muito simples: a paixão pela música e a energia única que existe entre quem está na cabine e quem está na pista. Esse momento nunca perdeu valor para mim. É único e faz-me sentir que estamos na mesma frequência. Cada atuação é uma nova oportunidade de criar ligação, contar uma história sonora e viver algo irrepetível. Também me motiva a base que tenho em casa. A minha família e, em especial, a minha mulher Rita, são uma inspiração e um apoio muito importante ao longo deste caminho. Também me motiva perceber que ainda tenho coisas para dizer musicalmente. A experiência dos anos dá maturidade, mas a vontade de criar e produzir continua viva. Enquanto sentir essa vontade, faz sentido continuar. Ao longo do percurso tive também a oportunidade de editar música desde os anos 90, em diferentes formatos como vinil, CD e digital, somando hoje cerca de 300 faixas lançadas por mais de 50 editoras em vários pontos do mundo. Em relação ao futuro, podem esperar um Huma-Noyd fiel à sua identidade, mas sempre em evolução. Continuarei focado em nova música, novos projetos e no trabalho conjunto com as agências YYY Music, em Portugal, e Technopia, sediada na Bélgica, que têm sido importantes nesta nova fase. Foi também através da Technopia que realizei no ano passado um sonho antigo ao atuar na Rave The Planet, em Berlim, herdeira do espírito da antiga Love Parade. Depois de tantos anos, não vejo isto como passado. Vejo como continuidade.
A UnderMag agradece ao Huma-Noyd pela disponibilidade, pela entrega e pela forma genuína como abriu o seu percurso nesta conversa. Mais do que uma simples entrevista, este foi um mergulho num trajeto construído com tempo, visão e uma ligação autêntica à música eletrónica. Num cenário cada vez mais marcado pela velocidade e pelo imediatismo, é essencial dar espaço a artistas que escolheram um caminho diferente feito de consistência, identidade e respeito pela cultura de pista. O testemunho de Huma-Noyd não é apenas um olhar sobre o passado, mas também uma reflexão sobre o presente e o futuro da música eletrónica. Uma perspetiva de quem viveu várias fases da cena, sem nunca perder a essência que o define. É este tipo de histórias que reforça a importância de preservar a identidade dentro da cultura e que continua a inspirar novas gerações a fazer mais do que seguir tendências: a criar o seu próprio caminho. O nosso respeito e obrigado.
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