UNDER_SPOTLIGHT: FUSE RECORDS
A UnderMag assinala os 15 anos da Fuse Records numa edição especial do Under_Spotlight. Nox e Syper falam sobre a história, os desafios, a identidade e o futuro de uma referência da música eletrónica portuguesa.
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Num universo onde as tendências mudam ao ritmo de um algoritmo e a atenção do público é cada vez mais disputada, construir um projeto que permaneça relevante durante 15 anos é um feito raro. Ainda mais quando esse percurso é feito sem atalhos, mantendo uma identidade própria e uma visão clara desde o primeiro dia.
A Fuse Records é um desses casos. O que começou como um projeto movido pela paixão pela música eletrónica transformou-se, ao longo de uma década e meia, numa das estruturas mais respeitadas da cena nacional. Editora, promotora, plataforma para novos talentos e ponto de encontro para uma comunidade fiel, a Fuse construiu o seu percurso através da consistência, da autenticidade e da capacidade de evoluir sem perder a sua essência.
Para assinalar os 15 anos deste percurso, a UnderMag conversou com Nox e Syper, fundadores da Fuse Records. Nesta edição especial do Under_Spotlight, revisitamos os momentos que marcaram a evolução do projeto, os desafios enfrentados ao longo dos anos, a filosofia por detrás das escolhas que moldaram a marca e a visão para o futuro.
Mais do que celebrar um aniversário, esta conversa procura perceber como um projeto independente conseguiu afirmar-se como uma referência da música eletrónica portuguesa, inspirando artistas, conquistando uma comunidade e provando que o sucesso também se constrói com tempo, coerência e paixão.
Esta é a história da Fuse Records, contada por quem a viveu desde o primeiro dia.










1. Quinze anos depois do nascimento da Fuse Records, quando olham para trás, qual foi o momento em que perceberam que o projeto tinha deixado de ser apenas uma editora para se tornar numa referência da música eletrónica portuguesa?
Syper - Acreditamos que esse momento aconteceu quando percebemos que a Fuse tinha deixado de ser apenas um projeto paralelo para se tornar o nosso foco principal. À medida que as festas foram ganhando notoriedade e crescendo de forma consistente, sentimos a necessidade de reforçar a equipa, criar uma estrutura mais profissional e até ter um escritório próprio. Foi nessa fase que percebemos que estávamos a construir algo com verdadeiro impacto e continuidade. Ver a comunidade crescer, os eventos ganharem dimensão e a marca consolidar-se de forma orgânica fez-nos perceber que a Fuse já era muito mais do que uma editora, tinha-se tornado uma referência dentro da cena eletrónica portuguesa.
Nox - Do lado de quem acompanhou o percurso da Fuse ao longo destes anos, acho que o momento aconteceu quando. deixou de ser apenas uma editora e passou a ser uma marca de confiança. Quando um lançamento Fuse passou a carregar uma expectativa de qualidade, independentemente do artista envolvido, percebeu-se que o projeto tinha ganho uma dimensão diferente dentro da cena.
2. A identidade da Fuse sempre pareceu equilibrar qualidade artística e visão a longo prazo. Houve decisões difíceis ou oportunidades recusadas que acabaram por definir aquilo que a Fuse é hoje?
Syper - Sim, ao longo destes 15 anos houve muitas decisões difíceis e acreditamos que continuarão a existir. Um dos maiores desafios passa por encontrar o equilíbrio entre diferentes fatores: a qualidade artística, a experiência que queremos proporcionar ao público, a sustentabilidade financeira do projeto e a capacidade de apresentar propostas que façam sentido dentro da identidade da Fuse. Nem sempre é fácil tomar decisões que agradem a todos, mas sempre procurámos manter-nos fiéis à nossa visão. Mais do que seguir tendências passageiras ou modas do momento, quisemos construir algo com consistência e pensado a longo prazo. Acreditamos que essa foi uma das decisões mais importantes que tomámos desde o início: privilegiar a autenticidade, a coerência e o crescimento sustentável, em vez de procurar resultados imediatos. No final, foi essa visão que ajudou a definir aquilo que a Fuse é hoje.
Nox - Acredito que qualquer projeto com longevidade é definido tanto pelas decisões que toma como pelas que recusa. Num mercado cada vez mais acelerado, manter uma identidade exige disciplina. A sensação que tenho é que a Fuse sempre privilegiou consistência em vez de seguir tendências passageiras, e isso acabou por fortalecer a sua credibilidade.
3. Ao longo destes 15 anos, a indústria da música eletrónica mudou profundamente. Como é que a Fuse conseguiu evoluir sem perder a sua identidade?
Syper - A nossa evolução tem sido muito natural, sobretudo porque estamos diariamente focados no projeto e atentos à forma como a indústria vai mudando. Ao longo destes 15 anos, assistimos a transformações profundas na forma como a música é produzida, lançada, promovida e consumida, e sempre procurámos acompanhar essa evolução de forma consciente. Acreditamos que a chave está em saber adaptar-nos sem perder a identidade que nos define. Estamos constantemente atentos ao mercado, às novas ferramentas e às mudanças de comportamento do público, mas sem comprometer os valores e a visão que estiveram na origem da Fuse. Essa capacidade de evoluir mantendo uma linha coerente tem sido fundamental para continuarmos relevantes e preparados para os desafios de cada nova fase da indústria.
Nox - Porque percebeu que evolução não significa mudar de essência. Mudaram as plataformas, as formas de consumo e a velocidade da comunicação, mas a procura por qualidade continua a ser o denominador comum. A Fuse soube adaptar-se às mudanças sem comprometer os seus valores.
4. O que procuram verdadeiramente quando recebem uma demo ou conhecem um novo talento? Existe um "som Fuse" ou o mais importante continua a ser a personalidade artística?
Syper - Mais do que procurar um determinado estilo ou seguir uma fórmula específica, procuramos sentir aquilo que o artista nos está a transmitir. Quando recebemos uma demo ou conhecemos um novo talento, o mais importante é perceber se existe uma identidade própria, uma visão artística clara e uma ligação genuína com aquilo em que acreditamos enquanto projeto. Se sentirmos que a proposta vai ao encontro da nossa visão e do nosso gosto, não temos qualquer problema em apostar nesse artista. Pelo contrário, gostamos de dar espaço para que cada um possa desenvolver o seu trabalho de forma autêntica e expressar aquilo que o distingue. Talvez exista uma certa sensibilidade comum nos projetos que lançamos, mas mais do que um “som Fuse”, o que valorizamos verdadeiramente é a personalidade artística, a criatividade e a honestidade de cada artista.
Nox - Enquanto artista, acredito que o mais importante é a autenticidade. O mercado está cheio de música tecnicamente bem produzida, mas aquilo que realmente fica é a identidade. Mais do que um "som Fuse", sempre senti que existe uma visão artística Fuse: honestidade, personalidade e coerência.
5. Para muitos artistas, lançar música pela Fuse representa um marco importante na carreira. Que responsabilidade sentem ao desempenhar esse papel?
Syper - Sentimos essa responsabilidade de uma forma muito positiva. Acima de tudo, é um sentimento de enorme satisfação e gratidão perceber que a Fuse se tornou uma plataforma relevante para tantos artistas e que, para muitos deles, lançar música connosco representa um passo importante nas suas carreiras. É claro que existe uma responsabilidade acrescida quando assumimos esse papel, mas encaramo-la com entusiasmo. Para nós, é extremamente gratificante saber que estamos a cumprir aquilo a que nos propusemos desde o início: apoiar artistas, criar oportunidades e contribuir para o crescimento da música eletrónica, tanto em Portugal como além-fronteiras.
Nox - A responsabilidade é enorme porque uma editora não lança apenas música, ajuda a validar percursos. Para muitos artistas, um lançamento pode representar uma oportunidade de chegar a novos públicos e novos mercados. Quando isso acontece, existe sempre um impacto que vai muito além da música em si.


6. É hoje mais fácil produzir música de qualidade, mas mais difícil construir uma carreira sustentável?
Syper - É difícil dar uma resposta definitiva a essa questão, porque existem argumentos válidos para ambos os lados. Por um lado, hoje é claramente mais fácil produzir música de qualidade e chegar ao público, graças às inúmeras ferramentas e plataformas que estão ao alcance de qualquer artista. O acesso à produção, distribuição e promoção nunca foi tão democrático como é atualmente. Por outro lado, essa mesma facilidade trouxe um enorme aumento da oferta. Há mais música a ser lançada do que nunca, o que torna cada vez mais desafiante destacar-se e construir uma carreira sustentável a longo prazo. Os artistas têm hoje mais oportunidades para mostrar o seu trabalho, mas também enfrentam uma concorrência muito maior pela atenção do público. Quanto aos conselhos para os novos produtores, acreditamos que a autenticidade continua a ser um dos fatores mais importantes. É fundamental encontrar uma identidade própria, desenvolver uma visão artística consistente e não tentar seguir apenas aquilo que está na moda. Quando existe talento, dedicação e uma proposta genuína, as oportunidades acabam por surgir. Acima de tudo, é importante acreditar no próprio percurso, ser persistente e compreender que construir uma carreira é uma maratona, não um sprint. No final, o sentimento que prevalece é o de felicidade e realização. Ver artistas evoluírem, alcançarem novos patamares e saber que fizemos parte desse percurso é uma das maiores recompensas destes 15 anos de atividade.
Nox - Sem dúvida. As ferramentas nunca estiveram tão acessíveis, mas a atenção das pessoas nunca esteve tão fragmentada. Produzir música é apenas uma parte da equação. Construir uma identidade, criar relações genuínas e manter consistência ao longo dos anos continua a ser o verdadeiro desafio.
7. Qual é o segredo para manter essa ligação com o público ao fim de 15 anos?
Syper - Acreditamos que o segredo está na forma como sempre conduzimos este projeto: com honestidade, caráter e fidelidade aos princípios que definem a Fuse desde o primeiro dia. Procuramos seguir os nossos instintos, manter-nos fiéis à nossa visão e trabalhar com genuína paixão por aquilo que fazemos. Ao longo dos anos, isso permitiu-nos criar algo que vai muito além de uma simples audiência. Construímos uma comunidade que carinhosamente chamamos de família, composta por pessoas que nos acompanham e confiam no nosso trabalho porque sabem o compromisso que colocamos em cada evento e em cada projeto que desenvolvemos. No final do dia, o nosso objetivo é simples: proporcionar a melhor experiência possível. Sabemos que muitas pessoas escolhem os nossos eventos para se desligarem das preocupações do quotidiano, para viverem momentos especiais ou simplesmente para desfrutarem da música que gostam. Essa responsabilidade motiva-nos a dar sempre o nosso melhor, porque acreditamos que é essa dedicação que mantém viva a ligação entre a Fuse e a sua comunidade, mesmo passados 15 anos.
Nox - A autenticidade. O público pode mudar, as gerações podem mudar, mas as pessoas continuam a reconhecer quando um projeto é genuíno. A Fuse nunca pareceu tentar ser algo que não é, e isso cria uma ligação muito forte com a comunidade.
8. Existe algum lançamento, artista ou momento vivido pela Fuse que considerem subvalorizado?
Syper - Ao longo de 15 anos de atividade, é natural que existam projetos, lançamentos ou momentos que, na nossa perspetiva, poderiam ter recebido um reconhecimento ainda maior. No entanto, preferimos não destacar nenhum caso em particular. A nossa forma de olhar para o percurso da Fuse passa mais por valorizar aquilo que foi construído e continuar a trabalhar para melhorar o que está por fazer. Cada lançamento, cada artista e cada evento contribuíram, à sua maneira, para a história que construímos até aqui, e acreditamos que todos tiveram a sua importância no crescimento do projeto.
Nox - Acho que, mais do que um lançamento específico, por vezes é subvalorizado o impacto que a Fuse teve na projeção internacional da música eletrónica portuguesa. Muitas portas abriram-se graças ao trabalho consistente desenvolvido ao longo destes anos.


9. Se pudessem deixar uma mensagem à equipa que fundou a Fuse em 2011, o que diriam?
Syper - Se pudéssemos deixar uma mensagem à equipa que fundou a Fuse, diríamos para continuar a acreditar no processo e a desfrutar de cada etapa do caminho. Aquilo que começou de forma muito natural, através de um grupo improvável de pessoas unidas por uma paixão comum pela música, acabou por crescer muito para além daquilo que alguma vez imaginámos. Na altura, era impossível prever a dimensão que o projeto viria a alcançar ou o impacto que teria na vida de tantas pessoas. Olhando para trás, existe um enorme sentimento de orgulho por tudo o que foi construído, mas também de gratidão por todos os que fizeram parte desta caminhada. Acima de tudo, diríamos que valeu a pena acreditar. O percurso teve desafios, conquistas e muitas aprendizagens, mas o resultado é algo que supera largamente aquilo que a equipa fundadora poderia ter imaginado nos primeiros dias da Fuse.
Nox - Diria para continuarem exatamente como começaram: apaixonados pela música, curiosos e fiéis à sua visão. Quinze anos depois, essa continua a ser a maior força do projeto.
10. Depois de celebrar estes 15 anos, qual é a visão para o futuro da Fuse Records?
Syper - Sem dúvida que ainda existem muitos objetivos por concretizar. Acima de tudo, queremos continuar a crescer, mas da mesma forma que crescemos até aqui: com bases sólidas, trabalho, honestidade e uma visão de longo prazo. Esse sempre foi o nosso caminho e acreditamos que continuará a ser a chave para o futuro da Fuse. Temos a ambição de continuar a evoluir, explorar novas oportunidades e levar o projeto a patamares cada vez mais elevados, sem nunca perder a identidade que construímos ao longo destes 15 anos. Felizmente, sentimos que ainda há muito por fazer e muitos desafios entusiasmantes pela frente. Para já, não podemos levantar o véu sobre alguns dos projetos e novidades que estamos a preparar, mas podemos garantir que continuamos tão motivados e comprometidos como no primeiro dia. Estamos aqui para ficar e para continuar a surpreender a nossa comunidade com iniciativas que reflitam a paixão e a dedicação que sempre colocámos em tudo o que fazemos.
Nox - Espero que continue a fazer aquilo que sempre fez melhor: descobrir talento, apoiar artistas e criar pontes entre Portugal e o resto do mundo. Quinze anos são um marco impressionante, mas a sensação é que a história ainda está longe de terminar.
Uma última palavra
Chegamos ao fim desta edição especial do Under_Spotlight dedicada aos 15 anos da Fuse Records.
Antes de encerrarmos esta conversa, a equipa da UnderMag gostaria de agradecer ao Nox e ao Syper pela disponibilidade, pela partilha e pela honestidade com que revisitaram o percurso da Fuse.
Ao longo destes 15 anos, a Fuse construiu muito mais do que uma editora ou uma promotora de eventos. Construiu uma identidade, uma comunidade e um legado que ajudou a elevar a música eletrónica portuguesa, sempre fiel aos seus princípios e à sua visão.
Num setor onde tantas vezes se privilegia o imediato, a Fuse demonstrou que é possível crescer de forma consistente, apostar na qualidade e manter uma ligação genuína com o público. Esse é, talvez, o maior contributo que deixa à cultura eletrónica nacional.
Da parte da UnderMag, fica o nosso reconhecimento por tudo o que têm feito em prol da música eletrónica e da cultura underground em Portugal. Projetos como a Fuse são fundamentais para que novos artistas encontrem espaço para crescer, para que o público continue a descobrir novas sonoridades e para que a cena nacional permaneça viva, dinâmica e em constante evolução.
Desejamos que este seja apenas mais um marco numa história que ainda tem muito para escrever. Que nunca vos falte a ambição para continuar a inovar, a paixão pela música e a vontade de unir pessoas em torno daquilo que verdadeiramente importa: a cultura, a partilha e a experiência que só a música consegue proporcionar.
Parabéns pelos 15 anos. Que os próximos sejam vividos com a mesma dedicação, autenticidade e espírito que fizeram da Fuse uma referência da música eletrónica em Portugal.
Obrigado por continuarem a manter viva a cultura underground.
— Equipa UnderMag
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