UNDER_SPOTLIGHT: FAINA
A FAINA celebra 10 anos de música eletrónica, cultura underground e ligação a Aveiro. Conheça a história, os desafios e o futuro do projeto no Under_spotlight.
UNDER_SPOTLIGHT


Em novembro de 2016, nascia em Aveiro um projeto com uma ideia muito clara: criar uma alternativa, valorizar a música eletrónica underground e devolver à pista de dança o espaço que merece.
Dez anos depois, a FAINA tornou-se muito mais do que uma promotora de eventos. Entre festas que conquistaram uma identidade própria, uma ligação profunda à cidade, uma editora discográfica e uma comunidade que cresceu ao longo do tempo, o projeto construiu um percurso que merece ser contado.
Num contexto em que a música eletrónica em Portugal vive uma fase de grande exposição internacional, mas onde os projetos independentes continuam a enfrentar desafios significativos, a história da FAINA ganha uma dimensão particular. Manter uma visão artística, apostar na curadoria musical e continuar a acreditar na força das cenas locais são princípios que permanecem no centro da sua atividade.
Nesta edição especial do Under_spotlight, conversámos com os fundadores Pedro Gonzaga e Luís Rocha, também conhecidos como WHITENOISE, para revisitar os momentos que marcaram esta década, perceber as escolhas que definiram a identidade da FAINA e conhecer a visão que têm para os próximos anos.
Dez anos depois, a mensagem é Still We Rave. E há projetos cuja verdadeira dimensão não se mede apenas pelo tempo que permanecem ativos, mas pela marca que deixam na cultura que ajudam a construir.


1- A FAINA nasceu em Aveiro, em novembro de 2016, da vontade de criar algo próprio no universo da música eletrónica. Como surgiu a ideia de avançarem com este projeto e que realidade da cena local queriam transformar ou complementar naquela altura?
A FAINA surgiu pela necessidade de criar uma alternativa de qualidade ao que se ouvia na maioria dos clubs da cidade na altura. Relembro que em 2016 muito do que se ouvia nos bares e discotecas era música latina de fraca qualidade. Aveiro sempre teve uma tradição de bom gosto no que diz respeito à música electrónica, seja House ou Techno, e também sempre foi a “casa” de muitos djs e produtores de altíssima qualidade. Ver isso “desaproveitado” era algo que não nos agradava.
2- Desde os primeiros eventos, a FAINA foi construindo uma identidade muito ligada às matinés, aos espaços ao ar livre e à relação entre música, ambiente e comunidade. Como definiriam a essência do projeto e que decisões foram fundamentais para que se distinguisse de outras propostas?
Sim o horário de Matiné foi também uma reacção à colocação de limitadores de som nos bares e clubs da cidade onde ainda se tentava tocar House. No entanto com a necessidade de basslines e kicks fortes, o dance floor ficava sempre afectado pela ausência de volume necessário para que as pessoas pudessem dançar. Decidimos então passar para a tarde, onde podíamos contornar a lei dos limitadores. No entanto nada seria possível sem uma essência verdadeira e honesta sobre a curadoria musical que sempre quisemos imprimir no projecto: qualidade acima de tudo, uma sonoridade assumidamente underground, e a ligação aos artistas locais e nacionais.
3- A ligação à Ria de Aveiro, às salinas e a espaços menos convencionais tornou-se uma parte reconhecível da experiência FAINA. Até que ponto a região influencia as vossas escolhas e sentem que o projeto também contribuiu para mudar a forma como se vive a música eletrónica em Aveiro?
A FAINA é Aveiro. É aqui que queremos estar, é aqui que queremos que as pessoas dancem, é aqui que tudo faz sentido para nós. Já tivemos muitas propostas para fazer eventos fora de Aveiro, mas é opção nossa não o fazer. Queremos mesmo que as pessoas venham cá para ter a experiência de se divertir numa FAINA. O mais bonito disto tudo é perceber que as pessoas de Aveiro vestem a camisola do projecto tanto ou mais do que nós, e que se orgulham genuinamente da cidade ter algo que já é reconhecido no resto do país e também um pouco no estrangeiro.
4- Ao longo desta década, houve certamente festas que ficaram na memória por razões diferentes. Se tivessem de escolher um momento que simbolizasse aquilo que a FAINA se tornou, qual seria e porquê? Há alguma edição que vos tenha feito perceber que o projeto estava a alcançar algo maior do que imaginavam?
Como devem imaginar em 10 anos tivemos muitos momentos especiais e memoráveis, mas relembramos com muito carinho o primeiro aniversário com o Magazino, que chegou ao evento com uma garrafa de tequila para nos oferecer, onde escreveu “Keep it underground, muitos parabéns aos homens da FAINA”. Hoje percebemos que mantivemos o que o Luís nos pediu e que tudo valeu a pena.
Recordamos também do aniversário com o Dan Ghenacia a tocar, que foi verdadeiramente épico e que largos meses mais tarde nos encontrou no Fabric em Londres e nos disse que tinha adorado e que queria muito voltar. São estes momentos que te fazem perceber que algo de especial foi conseguido e que alcançámos algo muito maior do que alguma vez pensámos.
5- Organizar eventos de música eletrónica exige muito mais do que escolher artistas e preparar um alinhamento. Quais foram os maiores desafios destes dez anos, desde a produção e a sustentabilidade financeira até às mudanças no comportamento do público, e o que aprenderam com os momentos mais difíceis?
A FAINA continua a ser algo muito “familiar”. É um evento pensado e preparado por 2 pessoas e logisticamente montado por uma equipa muito pequena. Todo o processo é pensado para que seja sempre exequível financeiramente e não darmos "passos maiores do que a perna”. Continuamos a viver uma “fase dourada” em que é a marca que vende os bilhetes e não o artista X ou Y. Isso permite alguma confiança e uma programação mais tranquila.
Durante a pandemia tivemos dos nossos momentos mais desafiantes, mas mesmo assim optámos por não parar, com videocasts de muitos artistas e mais tarde com eventos com pessoas sentadas e espaçadas. Foi difícil mas mantivemos a comunidade ligada a nós, pois sabíamos que mais tarde voltaríamos a poder dançar todos juntos.










6- A FAINA também desenvolveu uma vertente discográfica, com lançamentos e iniciativas como a Faina Edits. Como nasceu essa vontade de levar o projeto para além da organização de festas e que papel desempenham a curadoria musical e a edição na identidade que querem construir?
Em 2019 decidimos lançar o primeiro disco da editora, uma edição física em vinyl. Procurávamos aumentar a notoriedade da marca além fronteiras e partilhar a música de alguns dos artistas residentes do projecto. Com a pandemia tivemos de cancelar o lançamento do segundo disco e optámos por começar a trabalhar exclusivamente no digital. Hoje temos uma editora bem consolidada com lançamentos mensais regulares de artistas nacionais e internacionais. Esse trabalho é feito com a experiência e know-how do Fragoso que desafiámos para ser nosso parceiro na label e desenvolver em conjunto connosco um planeamento bem estruturado. Tem vindo a crescer imenso e estamos muito satisfeitos com os resultados alcançados.
7- Uma década de atividade significa cruzar caminhos com muitos DJs, produtores e pessoas que acompanham o projeto desde o início. Que importância teve essa comunidade no crescimento da FAINA e como procuram equilibrar a presença de artistas estabelecidos com a descoberta de novos talentos?
Esse é um trabalho que nos orgulhamos de fazer, a mistura entre artistas estabelecidos e DJs/Produtores emergentes. Além disso nunca perdemos a ligação com Aveiro e com os seus artistas. Claro que não nos podemos esquecer que apenas realizamos 7 eventos anuais, pelo que fica complicado trazer todos quanto queríamos, mas achamos que temos conseguido chegar a vários espectros do House e Techno e a um mix interessante entre "nova e velha escola”.
8- Desde 2016, a música eletrónica e a forma de viver a noite mudaram bastante, seja pela influência das redes sociais, pela evolução dos hábitos do público ou pela crescente oferta de eventos. Na vossa perspetiva, o que mudou mais profundamente e que valores continuam a considerar essenciais numa experiência de música eletrónica?
Muito mudou… Clubs fecharam, promotores locais como a FAINA terminaram. E isso impacta directamente a scene local e nacional. Quem vê de fora acha que Portugal está a viver dos melhores momentos de sempre, com eventos gigantes, festivais, djs de todo o mundo a mudarem-se para Lisboa, mas a realidade é bem mais profunda que isso. É óptimo haver tanto interesse no nosso país e ele poder ser o palco de tais eventos, mas não se deve descuidar da scene local, dos artistas locais, dos clubs, das editoras e produtoras de menor dimensão. São elas que definem o que somos, que criam palco para novos talentos, e que moldam a nossa sonoridade.
Por isso continuamos a acreditar no valor da comunidade, a valorizar o nosso publico e os nossos artistas, a valorizar Aveiro acima de tudo e a criar interesse na nossa região. Só assim faz sentido para nós. Não é fácil mas acreditamos que este é o nosso propósito.
9- Em 2026, a FAINA assinala uma década de existência sob a ideia Still We Rave. O que representa esta mensagem para vocês neste momento da história do projeto? A celebração serve sobretudo para olhar para o caminho percorrido ou também para afirmar uma nova fase da FAINA?
Still We Rave é, para nós, muito mais do que uma celebração de dez anos. É uma forma de reconhecer tudo o que vivemos, as pessoas que fizeram parte deste percurso e a energia que nos trouxe até aqui, mas também de reafirmar aquilo em que continuamos a acreditar. Ao longo desta década, a FAINA foi cresceu, transformou-se e encontrou o seu lugar, sem perder a vontade de criar experiências que aproximam pessoas através da música, da cultura e da liberdade de expressão.
O Still representa essa continuidade, a resistência e a capacidade de nos mantermos fiéis à nossa essência, mesmo num contexto em constante mudança. O Rave é o impulso que nos move, a celebração coletiva e a vontade de continuar a criar momentos que fazem sentido para quem os vive connosco.
10- Depois de dez anos a construir uma identidade própria a partir de Aveiro, que ambições têm para a próxima década? Existem novos formatos, territórios, colaborações ou direções artísticas que gostariam de explorar, mantendo aquilo que consideram ser a verdadeira essência da FAINA?
Queremos muito continuar a desenvolver o nosso trabalho tendo Aveiro como ponto de partida. Obviamente que ambicionamos mais reconhecimento internacional e eventualmente exportar um pouco o nosso trabalho além fronteiras. Temos em mente algumas sinergias com marcas que se regem pelos mesmos valores e sonoridade, aumentando assim a comunidade existente. Estamos muito entusiasmados pelo que ainda iremos fazer.
Bilhetes para o aniversário aqui
A UnderMag agradece a Pedro Gonzaga e Luís Rocha, os fundadores da FAINA, pela disponibilidade, pela partilha de histórias e pela oportunidade de conhecer um pouco melhor o percurso de um projeto que, ao longo de dez anos, tem contribuído para a valorização da música eletrónica underground em Portugal.
De Aveiro para o mundo, a FAINA demonstra que é possível crescer, criar identidade e construir uma comunidade sem perder de vista as raízes e os valores que deram origem ao projeto.
Dez anos depois, continuamos a precisar de projetos que acreditem na música, nos artistas e na força das comunidades locais.
Parabéns à FAINA pelos 10 anos. Still We Rave!
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