
UNDER_SPOTLIGHT: DU/ART
Há nomes que não precisam de apresentação longa para quem vive a pista, mas cuja história merece ser contada com detalhe. DU/ART é um desses casos. Figura incontornável do techno português, construiu ao longo de mais de duas décadas uma carreira sólida, consistente e profundamente ligada à essência underground da música electrónica.
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Desde os primeiros passos até aos palcos internacionais, DU/ART destacou-se pela sua identidade sonora crua, intensa e sempre focada na ligação emocional com o público. Os seus sets não são apenas sequências de faixas são narrativas cuidadosamente construídas, onde a energia, a tensão e a libertação coexistem numa leitura madura da pista de dança. Uma abordagem que o levou a actuar em alguns dos clubes e festivais mais respeitados da cena electrónica europeia, afirmando-se como um verdadeiro embaixador do techno feito em Portugal.
Mais do que acompanhar tendências, DU/ART cresceu com o género. Viveu diferentes fases da cultura clubbing, adaptou-se às mudanças da indústria e manteve-se fiel a uma visão artística que privilegia autenticidade, técnica e respeito pela música. Essa longevidade não acontece por acaso: é fruto de trabalho contínuo, de uma relação honesta com o público e de uma paixão intacta pela cultura electrónica.
No under_spotlight, abrimos espaço para uma conversa que vai além do DJ e do produtor. Falamos de percurso, identidade, visão artística e do futuro do techno em Portugal e no mundo através da perspetiva de alguém que continua a fazer da pista o seu território natural.
Como descreverias a tua jornada desde os primeiros dias como DJ até te tornares numa figura reconhecida do techno internacional?
A minha primeira experiência como DJ surgiu de forma quase inocente, ainda no 7.º ou 8.º ano, quando entrei para o grupo de rádio da escola mais tarde toquei num bar de amigos, sem qualquer consciência de que um dia isso se tornaria a minha profissão.
O verdadeiro ponto de viragem aconteceu em 1999, quando tive o primeiro contacto com o techno através de um CD de Jeff Mills. Até então não gostava de música eletrónica, mas aquele disco abriu-me uma visão completamente nova. Comecei a explorar o género, tornei‑me um verdadeiro fanático, passei a frequentar raves com regularidade e a observar com atenção o estilo e a abordagem de cada DJ.
Na altura, o equipamento era caro e não tinha nenhum amigo com material disponível para experimentar. O “bichinho” cresceu em silêncio até 2005, ano em que, através da internet, conheci o DJ Dnel, que vivia perto de mim e me convidou para ir a casa dele. Depois das primeiras sessões no estúdio dele, não tive mais dúvidas: decidi investir seriamente. Desisti de entrar no curso de Engenharia Mecânica, arranjei um empréstimo, comprei dois CDJ e uma mesa de mistura e comecei, literalmente, a construir a minha carreira a partir do zero.
Os primeiros passos foram dados num projeto de rádio pirata de amigos, a Radioaktivity, onde fazíamos transmissões online e cheguei a tocar em directo sets de mais de 12 horas seguidas. Essa fase foi essencial para ganhar técnica e resistência. Em paralelo, fui aceitando pequenos trabalhos em bares e festas privadas. Nessa altura, no entanto, ainda reservava o techno para as transmissões de rádio; sentia que ainda não estava preparado para me assumir como DJ profissional de techno em palco.
Cerca de um ano depois, senti que a evolução justificava dar um passo em frente. Nasceu então o meu primeiro projeto em sociedade, o Primal Skills, que foi um sucesso mas ao fim do terceiro evento, divergências internas levaram-me a sair. Pouco depois recebi o convite de uma produtora que já trabalhava com artistas internacionais, mas, infelizmente, o projeto acabou por ruir quando se descobriu que um dos sócios estava a desviar dinheiro.
Esse episódio foi o gatilho para criar a minha própria produtora, a Urbanbeats. Desde o primeiro evento o projeto resultou, e entre 2007 e 2012 organizámos centenas de eventos . A Urbanbeats terminou apenas porque o meu tempo disponível se tornou insuficiente para lhe dedicar a atenção que merecia.
Em 2008, já presente nos principais eventos de techno em Portugal, ainda que maioritariamente em pistas secundárias, aconteceu uma surpresa decisiva: chamei a atenção do aclamado DJ Rush. Dali nasceu um convite para uma série de quatro datas de celebração de aniversário, na Alemanha, República Checa, Eslovénia e Hungria. A tour correu extremamente bem e logo depois, surgiu o convite oficial para integrar a agência dele. A partir desse momento, a minha vida mudou e tive finalmente a oportunidade de tocar em alguns dos melhores clubes e eventos de techno da Europa.


Quais foram as maiores influências musicais que moldaram o teu estilo, e como essas referências continuam a impactar as tuas escolhas artísticas hoje?
As minhas maiores referências foram, e continuam a ser, nomes como Jeff Mills, Carl Cox, Dave Clarke, Ben Sims, Murphy, Rush e o meu favorito nacional, Ze MIG-L. Todos eles, em diferentes fases, ajudaram a moldar o meu gosto e a forma como entendo o techno.
Durante muitos anos absorvi tudo o que podia: sets, técnicas, seleção musical, postura em cabine. Tentava sempre retirar o melhor de cada um. A partir do momento em que defini o meu próprio estilo, o foco passou a ser quase exclusivamente interno. Hoje posso dizer que não me sinto influenciado diretamente por ninguém; trabalho para que o meu som seja o reflexo da minha visão pessoal do techno.
O que significa para ti ser considerado um embaixador do techno português num contexto global?
Ser visto como uma espécie de embaixador do techno português no contexto internacional é, acima de tudo, um motivo de orgulho. Significa que o meu trabalho não foi em vão, que é apreciado e acarinhado dentro e fora do país.
Esse reconhecimento reforça a sensação de que fiz a aposta profissional certa ao dedicar a minha vida à música, muitas vezes contra a lógica ou a segurança de um caminho mais convencional.
Há momentos ou experiências em palco que consideras verdadeiros pontos de viragem na tua carreira?
O convite de Rush foi, sem dúvida, o grande ponto de viragem da minha carreira. Deu-me a oportunidade de mostrar o meu trabalho além-fronteiras e de pisar alguns dos melhores palcos do mundo.
Essas experiências não só ampliaram a minha projeção internacional, como também consolidaram a minha confiança enquanto artista e a certeza de que o meu lugar era, de facto, dentro da cena global do techno.


Como vês a evolução da cena techno em Portugal nos últimos anos e que papel achas que o público português tem nessa transformação?
A leitura que faço da cena atual em Portugal é, de certa forma, dividida. Por um lado, vivemos os maiores eventos de música eletrónica de sempre; quase todos os fins de semana há festivais e festas para milhares de pessoas. Por outro, quantidade não é sinónimo de qualidade.
Apesar da dimensão e do impacto visual destes eventos, a nível musical sinto que falta originalidade. Muitos DJs seguem fórmulas previsíveis e perdeu-se parte importante da essência underground. Nesse contexto, considero que o público tem uma grande responsabilidade: valoriza demasiado este tipo de proposta e revela pouca exigência.
No teu processo criativo, como equilibrias a técnica de DJing com a produção musical? Há diferenças claras no teu estado de espírito entre compor e actuar ao vivo?
No estúdio e em palco, o meu processo criativo vive em dois registos completamente distintos. A produção é um trabalho minucioso e solitário; uma faixa pode demorar horas ou dias até ficar pronta e exige um nível grande de foco e detalhe.
O DJing, por contraste, é energia em estado puro. A resposta imediata do público eleva tudo a outro nível. Gosto muito das duas facetas, mas neste momento a produção é o que mais me desafia. No estúdio, encaro DJing e produção como processos completamente separados, com ritmos e estados de espírito diferentes.
Quais são os maiores desafios que enfrentas atualmente, tanto a nível criativo como profissional?
Hoje, o maior desafio para mim é a comunicação com o público no plano digital. Sempre fui uma pessoa reservada e, atualmente, a exposição nas redes sociais representa uma parte enorme do “valor percebido” de um artista.
Isso leva muitos a transformarem-se em atores, representando um papel para manter relevância online. Venho de uma era pré‑internet, em que o valor se conquistava sobretudo pela música, pelas performances e pelo boca a boca. Adaptar-me a este novo paradigma, sem perder a autenticidade, é um exercício constante.


Com o crescimento constante de novas gerações de amantes de música electrónica, como manténs a tua autenticidade sem perder conexão com um público mais jovem?
Com o crescimento contínuo de novas gerações de amantes de música eletrónica, o meu critério mantém-se o mesmo: o objetivo é fazer o público feliz, mas sem trair aquilo em que acredito. Sempre toquei o que gosto, da forma que considero honesta.
Ao longo de 20 anos de carreira, já vi muitas modas irem e virem. A convicção que mantenho é que ser autêntico e saber esperar a nossa vez é uma estratégia mais sustentável do que correr atrás de tendências passageiras.
Se pudesses colaborar com qualquer artista ou produtor — vivo ou não — quem seria e porquê? Que resultado imaginarias dessa parceria?
Se pudesse escolher qualquer artista para colaborar, vivo ou não, escolheria sem hesitar Carl Cox. Sempre foi uma inspiração a nível de carreira e atitude, é o “DJ dos DJs”.
Musicalmente temos direções algo diferentes, por isso o resultado seria imprevisível, mas precisamente por isso seria um desafio que aceitaria sem pensar duas vezes.
O que podemos esperar de ti nos próximos meses entre lançamentos, colaborações, residências ou festivais?
Nos próximos meses vai ser lançado um vinil que inclui um remix meu para o tema “Tu No Debes Llorar”, de Peerk, Judas PE. Tenho mantido um ritmo consistente de trabalho em estúdio, por isso estão também a caminho várias edições digitais, tanto a solo como em colaboração com outros artistas.
Há ainda alguns festivais confirmados que ainda não posso anunciar, incluindo um set especial de vinil. Em resumo, o plano é manter-me o mais ativo possível, tanto em palco como em estúdio.
Agradecemos ao DU/ART por partilhar connosco a sua história, visão e experiência na cena techno nacional e internacional. A sua generosidade em revelar detalhes do percurso, desafios e inspirações permite-nos conhecer melhor o homem por detrás da música e compreender a paixão e dedicação que moldam cada set e cada produção.
Esta conversa é uma celebração do talento português e da cultura electrónica que nos une, reforçando a importância de artistas como DU/ART na afirmação do techno nacional no panorama global.
Obrigado por nos inspirares e nos levares, através da tua música, a explorar novas dimensões da pista de dança.
