UNDER_SPOTLIGHT: DJ CHINA (PT)
DJ China (PT) recorda quase quatro décadas de carreira, a evolução da música electrónica no Algarve, as Full Moon Parties e os desafios que marcam hoje a cultura de pista.
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Há percursos que se confundem com a própria história de uma cena. O de DJ China é um deles. Desde 1988, tem acompanhado de perto a evolução da música electrónica em Portugal e, em particular, do Algarve, atravessando diferentes gerações, espaços e momentos que ajudaram a definir a cultura de pista na região.
Da cabine à rádio, da criação de eventos às experiências que continuam a nascer no Algarve, são quase quatro décadas dedicadas à música e à construção de momentos de partilha através dela. Um percurso que inclui também a criação, em 1998, das Full Moon Parties, conceito que se tornou parte da memória colectiva do verão algarvio e que continua hoje a reunir diferentes gerações.
Mais do que uma viagem pelo passado, esta conversa é também uma reflexão sobre o presente e o futuro: o que mudou na profissão de DJ, o lugar da música numa indústria cada vez mais dominada pela imagem e pelas redes sociais, e os desafios que novas tecnologias como a inteligência artificial colocam à criação artística.
No Under_Spotlight, DJ China (PT) abre o arquivo de quase quatro décadas de carreira e partilha memórias, opiniões e uma visão muito própria sobre aquilo que continua a fazer da música electrónica uma cultura única.


1. Começaste a tocar em 1988. Como era viver a explosão da música electrónica nessa altura, especialmente no Algarve?
Comecei a tocar em 1988, numa altura em que a figura do DJ estava muito longe de ter o reconhecimento que tem hoje. Na época, o DJ era visto quase como mais um funcionário do espaço, alguém responsável por colocar música e manter o ambiente, e não como um artista ou uma figura central da cultura nocturna. Os meus primeiros passos foram no Alabastro Bar, um bar muito à frente da sua época e com uma identidade muito própria. No início, estava ligado ao pop, ao rock alternativo e à música indie. Era esse o universo musical que predominava e foi aí que aprendi muito sobre pistas de dança, leitura de público e cultura musical. Paralelamente, já existia em mim uma enorme curiosidade pela música House e pela electrónica que começava a emergir com força nos Estados Unidos e em Inglaterra.
Naquela altura, chegava muito pouca informação a Portugal e ainda menos ao Algarve. Não existia internet, plataformas de streaming ou a facilidade de acesso que existe hoje. Descobrir música nova exigia pesquisa, contactos, viagens e uma enorme dedicação.
Eu sentia que algo de muito importante estava a acontecer e que era pioneiro na minha região. A música House tinha uma energia diferente, uma linguagem universal e uma capacidade única de unir pessoas através do ritmo e da emoção. Era diferente de tudo o que eu já tinha vivido como DJ. Desde muito cedo acreditei que aquela seria a música do futuro. Felizmente, tive a oportunidade de assistir a essa evolução em primeira mão. No final de 1991, no Alabastro, já só passava House e electrónica. Ver a House e a música electrónica passarem de um movimento quase underground para um fenómeno global foi uma enorme satisfação pessoal, porque confirmou uma visão que tinha desde o início da minha carreira. Viver essa explosão foi um privilégio, não apenas por ter acompanhado o nascimento de uma cultura que viria a marcar várias gerações, mas também por ter contribuído, à minha escala, para a sua divulgação e crescimento no Algarve e em Portugal.
2. O Algarve sempre teve uma forte ligação ao turismo e à nightlife. Achas que a região teve o reconhecimento que merecia dentro da história da electrónica portuguesa?
O Algarve sempre teve uma ligação muito forte ao turismo e, consequentemente, à vida nocturna. Desde os anos 70 que a região se afirmou como um dos principais destinos turísticos do país, mas foi sobretudo durante os anos 90 que se tornou uma verdadeira referência nacional no que diz respeito ao entretenimento, ao clubbing e à cultura underground. Nessa época, Albufeira era, sem dúvida, um dos centros da noite portuguesa. Existiam bares, discotecas e espaços que rivalizavam com qualquer outro ponto do país. Locais como o Alabastro, Capítulo V, Locomia e Kadoc, entre muitos outros, ajudaram a criar uma identidade própria para a região.
Recebíamos turistas de todo o lado e existia uma enorme preocupação em oferecer experiências de qualidade, tanto ao nível da música como da produção dos espaços e dos eventos. Por isso, acredito que o Algarve teve, nessa altura, o reconhecimento que merecia. Esse reconhecimento não surgiu por acaso. Foi construído por empresários visionários, que compreendiam a importância da música, do entretenimento e da inovação para o crescimento da região. Havia uma ambição clara de colocar o Algarve na linha da frente da vida nocturna nacional e, durante muitos anos, isso foi conseguido com sucesso. Infelizmente, sinto que essa visão se foi perdendo ao longo do tempo. Muitos dos empresários que marcaram essa época já não estão presentes e a nova realidade do turismo trouxe outras prioridades. Aposta-se mais no consumo rápido e no entretenimento fácil do que na criação de conceitos diferenciadores.
Isso acabou por ter impacto na qualidade e na identidade da cena nocturna algarvia. Continuam a existir excelentes profissionais, espaços interessantes e projectos com valor, mas já não existe a mesma liderança, a mesma ousadia nem a mesma visão estratégica que fizeram do Algarve uma referência nacional durante décadas.
3. Viveste a transição do vinil para o digital e agora para uma geração dominada pelas redes sociais. Qual foi a maior mudança que sentiste enquanto DJ?
A transição do vinil para o digital foi algo que antecipei há muitos anos, num programa de rádio na Kiss FM que fiz nos anos 90. Dediquei uma emissão inteira ao futuro digital da música, muito antes dos softwares de DJ que conhecemos hoje. Procurei analisar para onde caminhava a tecnologia e como ela iria transformar a forma como a música seria tocada. A transição do vinil para o digital foi um alívio. As malas pesadas de vinil acabaram e a poluição que o vinil provocava também reduziu bastante. A maior mudança que senti enquanto DJ não foi a passagem do vinil para o digital, foi a chegada da era das redes sociais.
Quando comecei, nos anos 80, quase ninguém sonhava ser DJ. A maioria dos jovens queria ter uma banda de rock. O DJ era visto como um trabalhador da discoteca, não como um artista. Com o passar dos anos, isso mudou e o DJ conquistou o reconhecimento artístico que merecia. Paradoxalmente, foi também aí que começaram alguns dos problemas. Hoje em dia, a imagem, os números, os seguidores e os likes têm, muitas vezes, mais peso do que a própria música. Antigamente, um DJ era um contador de histórias. Construía uma viagem musical ao longo de horas, criava emoções, surpreendia o público e, por vezes, até levava as pessoas a uma experiência espiritual através da música. Havia uma grande preocupação com a descoberta musical e com a identidade artística de cada DJ.
Actualmente, grande parte da nova geração está mais preocupada com a presença nas redes sociais do que com a pesquisa musical. Muitos escolhem tocar aquilo que já sabem que é viral e popular, em vez de procurar apresentar algo novo ou construir uma narrativa própria. Felizmente, continuam a existir DJs extraordinários que mantêm viva a verdadeira essência da profissão, mas tornaram-se uma minoria dentro de uma indústria cada vez mais orientada para a imagem. Concordo que a tecnologia trouxe ferramentas incríveis e abriu novas possibilidades criativas, mas a cultura das redes sociais retirou parte da magia que tornava o DJ um verdadeiro contador de histórias. A profissão evoluiu, sem dúvida, mas nem sempre para melhor.


4. Tiveste uma forte ligação à rádio. Que importância teve a rádio na divulgação da música electrónica numa época sem internet e redes sociais?
A importância da rádio era absolutamente fundamental. Hoje temos acesso imediato a milhões de músicas através da internet, das plataformas de streaming e das redes sociais, mas nos anos 80 e 90 a realidade era completamente diferente. Se quiséssemos descobrir música nova, conhecer novos artistas ou acompanhar tendências internacionais, a rádio era uma das principais portas de entrada. Nessa altura existiam muitos programas de autor, feitos por pessoas apaixonadas pela música, que dedicavam horas a procurar novidades e a partilhá-las com os ouvintes. Esses programas desempenharam um papel decisivo na divulgação da música electrónica em Portugal e ajudaram a formar o gosto musical de uma geração inteira. Eu próprio tive a felicidade de fazer parte dessa história. No início dos anos 90 realizei um programa na Rádio Solar, uma estação que teve um papel muito importante na divulgação de música alternativa e electrónica no Algarve. Mais tarde trabalhei na Kiss FM, onde continuei a promover a música que me apaixonava e a acompanhar a evolução da cultura underground. Anos depois, por volta de 2007, juntamente com alguns amigos, lançámos a Cool FM, que emitia precisamente a partir das instalações da antiga Rádio Solar. Foram anos fantásticos, marcados por uma enorme liberdade criativa, pela descoberta de novos artistas e por uma relação muito próxima com os ouvintes.
Infelizmente, muito desse espírito perdeu-se com o passar dos anos. A forma como consumimos música mudou radicalmente e muitos dos espaços dedicados à descoberta musical desapareceram. No entanto, continuo a acreditar no poder da rádio como veículo de comunicação e de partilha cultural. Actualmente estou envolvido num novo projecto, a Cool FM Albufeira, uma rádio online disponível também através de aplicação móvel. De certa forma, é um regresso às origens, mas adaptado aos tempos modernos. O objectivo continua a ser o mesmo de sempre: divulgar boa música, apoiar artistas e criar uma ligação genuína com quem continua a acreditar na música electrónica.
5. Hoje fala-se muito de imagem, marketing e números. Na tua opinião, o talento musical continua a ser o mais importante?
Hoje é impossível ignorar a importância da imagem, do marketing e dos números. As redes sociais transformaram completamente a forma como os artistas comunicam com o público e a visibilidade tornou-se uma ferramenta fundamental para qualquer carreira de DJ. No entanto, acredito que existe um problema quando a imagem passa a ser mais importante do que a música. Em muitos casos, o sucesso de um DJ já não é medido pela sua cultura musical, pela capacidade de ler uma pista de dança ou pela qualidade das suas actuações, mas sim pelo número de seguidores, de visualizações ou de interacções que consegue gerar online. Chegámos a um ponto em que existem artistas que são contratados mais pela sua presença digital do que pelo seu talento enquanto DJs. Vemos situações em que a performance se torna secundária e o espectáculo é construído sobretudo para as câmaras e para as redes sociais. O mais surpreendente é que, muitas vezes, o público aceita isso naturalmente. Para mim, isso representa uma desvalorização da profissão.
Um DJ não deve ser avaliado apenas pela sua popularidade, mas sobretudo pela sua capacidade de seleccionar música, criar uma narrativa, construir uma viagem emocional e estabelecer uma ligação genuína com quem está na pista. É aí que reside a verdadeira arte de ser DJ, atrás de uma cabine. A imagem e o marketing são importantes e fazem parte da realidade actual, mas nunca deveriam substituir aquilo que está na origem de tudo: a música. No final do dia, é a qualidade musical, a identidade artística e a autenticidade que deveriam continuar a fazer a diferença entre um DJ e uma simples figura das redes sociais ou, como está na moda agora dizer, um “criador de conteúdos”.
6. Ao longo da tua carreira passaste por clubs, sunsets, festas de praia e boat parties. Que tipo de ambiente sentes que cria a ligação mais genuína entre DJ e público?
Ao longo da minha carreira tive a oportunidade de tocar nos mais variados contextos, como clubes, sunsets, festas de praia, boat parties, festivais e eventos muito diferentes entre si. Cada um tem a sua magia, a sua energia e os seus desafios. Para mim, uma ligação genuína entre o DJ e o público não depende do local, depende da autenticidade. Se o DJ estiver presente de corpo e alma, verdadeiramente focado na música e na experiência que está a criar, e se o público estiver aberto a receber essa mensagem, então a conexão acontece naturalmente. Para mim, é quase como uma conversa sem palavras, construída através da música, da energia e das emoções partilhadas ao longo da actuação. O ambiente ideal é aquele onde existe genuinidade dos dois lados. Quando o público confia no DJ e o DJ respeita o público, cria-se algo muito especial. Nesses momentos, deixa de existir uma separação entre quem está a tocar e quem está a dançar. Todos fazem parte da mesma viagem. Sinto-me feliz e privilegiado por conseguir criar essa ligação nos meus gigs. Seja numa boat party ao pôr do sol, numa Full Moon Party na praia, num clube ou num evento mais intimista, o objectivo é sempre o mesmo: criar uma experiência memorável através da música.
7. Ainda existe verdadeiro underground na cena electrónica actual ou achas que o conceito perdeu força com o crescimento da indústria?
O crescimento da música electrónica nas últimas décadas tem sido extraordinário. O que começou como um movimento alternativo e de nicho transformou-se numa indústria global capaz de encher festivais, estádios e pistas de dança em todo o mundo. Obviamente, essa evolução trouxe mudanças à cultura electrónica. Na minha opinião, o verdadeiro underground continua a existir e continua a ser fundamental. Felizmente, ainda há artistas, promotores, clubes e públicos que mantêm viva a essência original da música electrónica: a descoberta, a criatividade, a liberdade artística e a procura constante de novos sons. O mainstream, por sua vez, cresceu muito e tornou a música electrónica mais acessível a um público global, e isso não é necessariamente negativo. Antes pelo contrário, muitas vezes funciona como uma porta de entrada para quem está a dar os primeiros passos na cena. Muitos dos apaixonados pela electrónica começaram precisamente por ouvir os nomes mais populares antes de aprofundarem o seu conhecimento e explorarem estilos mais alternativos. No entanto, é no underground que as pessoas encontram uma ligação mais profunda à cultura, aos artistas e à própria música. É aí que a música continua a ser o elemento central e está mais livre de pressões comerciais. É também aí que muitas vezes nascem as ideias, os sons e os movimentos que mais tarde acabam por influenciar toda a indústria. Por isso, não vejo o mainstream e o underground como inimigos. Acredito que ambos podem coexistir e até complementar-se. O mainstream ajuda a divulgar a música electrónica junto de novos públicos e o underground preserva a sua identidade, a sua autenticidade e a sua capacidade de inovar. Na minha opinião, é no underground que continua a residir a essência mais pura e autêntica da música electrónica. E enquanto existirem artistas e públicos apaixonados pela música acima de tudo, o verdadeiro underground continuará vivo.
8. Depois de tantos anos de estrada, qual foi o momento ou a noite que mais te marcou até hoje?
Esta é uma pergunta difícil de responder. Depois de quase quatro décadas como DJ, tive o privilégio de viver momentos extraordinários em alguns dos locais mais emblemáticos do Algarve, de Portugal e noutros pontos do planeta. Poderia falar das noites inesquecíveis no Alabastro, do Capítulo V, da energia única do Caniço, da Kadoc nos seus anos dourados, das Luas Cheias no Chiringuito, das boat parties ou de tantos outros eventos que marcaram diferentes etapas da minha vida e da minha carreira. Cada um desses lugares representa uma história, uma fase, um público e uma emoção diferente.
Ao longo destes anos fui-me apercebendo de que os eventos que ficam na memória são aqueles em que tudo se alinha: a música certa, o público certo, a energia certa e aquela sensação única de união entre quem está a tocar e quem está a dançar. São momentos difíceis de explicar a quem nunca os viveu, porque existe uma ligação emocional e até espiritual que se cria através da música. Por isso, não consigo escolher apenas uma noite. Felizmente, foram muitas. O que mais me marca não é um evento específico, mas a soma de todos os momentos mágicos em que consegui unir verdadeiramente as pessoas através da música. É essa colecção de memórias que guardo com muito carinho.


9. As Full Moon Parties da Praia da Galé são um dos eventos mais icónicos do verão algarvio, com mais de duas décadas de história. Qual é a tua ligação a este conceito e o que estas noites representam para ti enquanto DJ e promotor?
A Lua Cheia é uma história contínua de 28 anos, uma celebração que já transcendeu o tempo e várias gerações. Para mim, não é apenas um evento. É uma parte muito importante do meu percurso enquanto DJ e promotor. Tudo começou em 1998 e, depois de uma primeira tentativa falhada em Junho desse ano, a primeira edição realizou-se a 9 de Julho de 1998, na Praia do Chiringuito, na Galé. Ninguém imaginava que aquela festa viria a transformar-se num dos eventos mais icónicos do verão algarvio. O que começou como um encontro alternativo, inspirado pela energia da Lua Cheia, pela música electrónica e pela ligação à natureza, rapidamente conquistou uma identidade própria e um público fiel. Ao longo dos anos, as Full Moon Parties registaram um crescimento contínuo e consistente. A dimensão do evento obrigou à sua evolução natural, passando do Chiringuito para as Pedras Amarelas e, posteriormente, para a Praia da Galé. O que inicialmente era uma festa intimista transformou-se numa referência cultural e musical do Algarve, atraindo milhares de pessoas e tornando-se um símbolo da herança pioneira de Albufeira na música electrónica. A Lua Cheia nunca foi apenas uma festa. Representa uma experiência colectiva onde a música, a natureza, a amizade e a energia da Lua se cruzam de uma forma muito especial. Essa componente quase espiritual foi, desde o primeiro dia, um dos elementos que distinguiu este conceito de tantas outras iniciativas. É verdade que, ao longo dos anos, e fruto do seu próprio crescimento, o evento acabou por se afastar um pouco dessa essência original. Mas este ano, com o apoio do Município de Albufeira, estamos a trabalhar para regressar às origens, recuperando o espírito que esteve na base da sua criação: a celebração da música, da Lua Cheia, da comunidade e da ligação única entre as pessoas e o espaço envolvente. Enquanto DJ, estas noites representam muito mais do que uma actuação. Representam um legado construído ao longo de quase três décadas. Sinto uma enorme gratidão por ter feito parte desta caminhada desde o primeiro dia e por ver que, 28 anos depois, a Full Moon na Galé continua viva, relevante e capaz de reunir diferentes gerações em torno da música. Não posso esquecer que houve sempre pessoas muito especiais envolvidas neste projecto. Ao longo destes anos, a Full Moon Party só foi possível graças à dedicação, paixão e contributo de muitas pessoas que acreditaram na sua identidade e ajudaram a construir aquilo que este evento representa hoje. A todas elas, deixo o meu sincero agradecimento, porque esta história foi escrita em conjunto.
10. Depois de quase quatro décadas ligadas à música electrónica, o que continua a motivar-te a subir a uma cabine e tocar para as pessoas?
O que me continua a motivar é muito simples: é porque a paixão pela música nunca desapareceu. Antes pelo contrário, continua tão presente hoje como quando comecei a tocar em 1988, certamente com mais sabedoria. Sempre que subo a uma cabine acontece algo difícil de explicar. Durante aquelas horas, desligo-me completamente do mundo exterior e concentro-me apenas na música, no público e na experiência que estou a tentar criar. Não se trata apenas de tocar músicas. Trata-se de construir uma história, criar emoções e proporcionar uma viagem que possa tocar nas pessoas de alguma forma. A maior recompensa não é o aplauso, a fotografia ou o reconhecimento. A maior recompensa é perceber que consegui tocar alguém através da música. Ver pessoas a esquecerem, nem que seja por algumas horas, os seus problemas do dia-a-dia, o stress, as suas preocupações ou dificuldades da vida. Quando sinto que a minha selecção musical conseguiu elevar o estado de espírito de alguém, criar felicidade, inspiração ou simplesmente um momento de liberdade, sinto que cumpri a minha missão. É verdade que nem sempre é fácil. Vivemos numa época em que muitas pessoas procuram apenas aquilo que já conhecem, aquilo que ouviram nas redes sociais ou aquilo que está na moda. Nem sempre existe abertura ou disposição do público para descobrir música nova ou para compreender a essência da música electrónica enquanto forma de expressão artística. Mas isso nunca me desmotivou. Continuo a acreditar que a música tem o poder de unir pessoas, criar emoções e transformar ambientes. E enquanto sentir essa energia, enquanto existir um público disposto a embarcar nessa viagem comigo, continuarei a subir a uma cabine com o mesmo entusiasmo de sempre. No fundo, o que me motiva é exactamente o mesmo que me motivava há quase quarenta anos: a oportunidade de partilhar música, criar momentos especiais e estabelecer uma ligação genuína com as pessoas através daquilo que mais gosto de fazer.
11. Para além da música, o que mais te trouxe alegria ao longo da vida?
Para além da música, aquilo que mais alegria me trouxe ao longo da vida foi, sem dúvida, a minha família e, em particular, as minhas filhas. Se a música me deu uma profissão, uma paixão e uma forma de me expressar, foram elas que me deram algo ainda mais importante: deram-me um propósito. Ser pai mudou a minha forma de ver a vida. Trouxe-me responsabilidades, ensinamentos e emoções que nenhuma pista de dança ou sucesso profissional me poderiam dar. Ao longo dos anos, a música levou-me a viver experiências extraordinárias, a conhecer pessoas incríveis e a construir uma carreira da qual me orgulho. Mas, no final do dia, é à família que regresso. É nela que encontro estabilidade, apoio, inspiração e a força para continuar a enfrentar os desafios da vida.
12. Olhando para o futuro, o que podemos esperar do DJ China (PT) nos próximos tempos? Tens novos projectos, músicas ou ideias que gostasses de concretizar?
Olhando para o futuro, podem esperar exactamente aquilo que sempre definiu o DJ China (PT): paixão pela música, vontade de criar experiências memoráveis e uma enorme curiosidade para continuar a aprender, evoluir e concretizar novas ideias. É verdade que, com o passar dos anos, as prioridades mudam e a idade também nos traz uma perspectiva diferente sobre a vida. Por isso, provavelmente não estarei presente em tantos eventos como noutras fases da minha carreira. Mas aquilo que nunca irá mudar é o entusiasmo com que encaro cada projecto e cada actuação. Continuarei ligado à organização de eventos, a tocar, a desenvolver conceitos e a apoiar iniciativas que façam sentido para mim e para a comunidade que me rodeia. Tenho sempre novas ideias na cabeça, novos projectos para explorar e novas músicas para descobrir. É essa vontade constante de criar uma das coisas que me faz levantar todos os dias com motivação. Uma das maiores riquezas desta caminhada tem sido também as pessoas que encontrei pelo caminho. Tenho a sorte de partilhar experiências, ideias e cabines com alguns amigos, DJs e profissionais que admiro. Muitas das minhas inspirações surgem precisamente dessas conversas, dessas colaborações e dessa troca de conhecimentos e visões sobre a música e a cultura electrónica Quero poder continuar a criar momentos especiais, desenvolver projectos com identidade própria e, acima de tudo, manter viva a paixão que me acompanha há quase quatro décadas. O DJ China (PT) do futuro, no fundo, será o mesmo de sempre: alguém apaixonado pela música, movido pela criatividade, pela amizade e pela vontade de transformar ideias em realidade.
13. Para além de DJ, também foste responsável pela criação e desenvolvimento de vários eventos. O que te dá mais satisfação: tocar ou criar um conceito do zero?
Gosto das duas vertentes, porque ambas fazem parte da minha vida há muitos anos. Criar um conceito do zero é um processo extremamente gratificante. Ver uma ideia nascer, desenvolver-se e transformar-se num evento com identidade própria é algo que me dá um enorme prazer. Ao longo da minha carreira tive a oportunidade de criar e ajudar a desenvolver vários projectos que acabaram por marcar a vida nocturna e cultural do Algarve, e isso é algo de que me orgulho muito. No entanto, se tiver de escolher, sem dúvida que a minha maior paixão continua a ser tocar. É na cabine que existe a ligação directa com o público, a emoção do momento e aquela energia impossível de replicar em qualquer outra função.
14. Actualmente és Director Musical e Artístico da Algarexperience, uma empresa de referência no sector marítimo-turístico no Algarve. Como surgiu este desafio e de que forma aplicas a tua experiência de décadas na música à criação das experiências a bordo?
Sem dúvida que é um grande desafio, mas também uma enorme fonte de realização pessoal e profissional. A Algarexperience é hoje uma referência no sector marítimo-turístico e, durante o verão, com operações distribuídas por quatro marinas no Algarve, o ritmo de trabalho é extremamente intenso. É um daqueles trabalhos em que o dia nunca parece ter horas suficientes, mas a verdade é que adoro aquilo que faço. Sou também o DJ da empresa e uma das minhas funções é criar identidades sonoras para cada experiência, garantindo que a música complementa o ambiente, a paisagem, o momento do dia e as emoções que queremos proporcionar aos nossos passageiros. A música tem a capacidade de transformar uma simples viagem de barco numa memória inesquecível. Toda a experiência que adquiri ao longo de quase quatro décadas como DJ, promotor e apaixonado pela música electrónica ajuda-me diariamente neste desafio. Aprendi a compreender diferentes públicos, a criar ambientes e a utilizar a música como uma ferramenta emocional capaz de aproximar pessoas e criar experiências únicas.
15. Como vês o impacto da inteligência artificial na música e na profissão de DJ nos próximos anos?
Vejo a inteligência artificial como uma das maiores revoluções que a música já enfrentou, mas também como um dos seus maiores desafios. Ao mesmo tempo que abre portas extraordinárias à criatividade, traz consigo riscos muito sérios para a valorização da música e dos próprios artistas. Neste momento já estamos a ser inundados por música criada com recurso à inteligência artificial. Em muitos casos, consigo reconhecê-la facilmente, porque há artistas e produtores que nem sequer tentam esconder a sua origem. Muitas dessas produções seguem fórmulas muito semelhantes, criadas para gerar consumo rápido e imediato, contribuindo para uma desvalorização ainda maior da música enquanto expressão artística. O perigo está precisamente aí. Se a música já vinha a perder valor devido ao excesso de oferta e à velocidade com que é consumida nas plataformas digitais, a inteligência artificial pode acelerar ainda mais esse processo. Corremos o risco de entrar num cenário onde existe tanta música disponível que se torna cada vez mais difícil distinguir o que foi criado por paixão, talento e visão artística do que foi simplesmente gerado por um algoritmo. Por outro lado, seria um erro olhar para a inteligência artificial apenas de forma negativa. Tal como aconteceu com os sintetizadores, os samplers, os computadores ou os softwares de produção, a tecnologia também pode ser uma ferramenta extraordinária quando colocada ao serviço da criatividade humana. A inteligência artificial vai certamente abrir portas para novas formas de criação musical, novos processos de produção e até novos conceitos artísticos que hoje ainda nem conseguimos imaginar. Acredito que estamos apenas no início desta transformação. Nos próximos anos vamos assistir a mudanças profundas na forma como a música é criada, distribuída e consumida. Algumas dessas mudanças serão positivas, outras menos. O grande desafio será garantir que a tecnologia continua a servir a criatividade humana e não o contrário.
16. Pelas tuas respostas, percebe-se que nunca foste um grande adepto da música comercial ou do mainstream mais massificado. O que é, para ti, a música comercial?
Antes de mais, quero deixar claro que não tenho nada contra a música comercial. Ela tem o seu espaço, o seu público e a sua função dentro da indústria musical. O problema surge quando toda a experiência musical se resume apenas a isso, música comercial. Para mim, a música comercial é “euforia rasca”: uma emoção rápida, imediata e de consumo fácil, que provoca uma reacção instantânea mas que se esgota muito depressa. “Parece” que é mais fácil tocar música comercial, mas isso esgota rapidamente um público. O que sempre procurei na música electrónica foi precisamente o contrário. Não é possível tocar sets longos, por vezes mais de oito horas, com música comercial. Gosto de música que desafia, que surpreende, que conta uma história e que continua a revelar novos detalhes mesmo depois de a ouvirmos várias vezes. A cultura da música electrónica nasceu muito ligada à descoberta e à criação de experiências. Um DJ não estava ali apenas para tocar sucessos atrás de sucessos. Estava ali para construir uma viagem, criar momentos e levar as pessoas a lugares onde nunca tinham estado musicalmente. Essa filosofia continua a inspirar-me até hoje. Por isso, não é uma questão de ser contra o mainstream ou contra a música comercial. É apenas uma questão de procurar algo mais profundo e com significado. A música pode ser entretenimento, mas também pode ser arte, cultura, inspiração e até transformação pessoal.
17. Que conselho darias a um jovem que hoje quer iniciar uma carreira como DJ?
O primeiro conselho que daria: estudasses! O segundo conselho seria: sê o melhor que podes ser naquilo que fazes. Não tentes copiar os outros nem seguir todas as modas do momento. Trabalha para encontrar a tua própria linguagem, a tua personalidade e a tua forma de comunicar através da música. A autenticidade continua a ser uma das qualidades mais valiosas que um artista pode ter. Vivemos numa época em que muitos jovens acreditam que ser DJ é aparecer nas redes sociais, fazer vídeos ou acumular seguidores. Hoje em dia é relativamente fácil aprender a utilizar o equipamento e as ferramentas tecnológicas. Difícil é construir essa identidade própria, desenvolver bom gosto musical e adquirir a experiência necessária para compreender uma pista de dança e criar uma verdadeira ligação com o público....
A UnderMag agradece ao DJ China pela disponibilidade, pela confiança e pela forma genuína como partilhou connosco a sua história. Foram quase quatro décadas de música, noites, encontros, projectos e memórias, e tivemos o privilégio de conhecer um pouco mais desse percurso através das suas próprias palavras. Esta conversa levou-nos por diferentes momentos da música electrónica e da noite algarvia, mas também por histórias pessoais, aprendizagens e uma paixão pela música que continua tão presente hoje como no início do caminho. Obrigado, China, por esta partilha, pela abertura e por nos teres deixado entrar um pouco no teu universo. É este lado humano da música que queremos continuar a descobrir e a mostrar no Under_Spotlight. Obrigado por esta conversa. Foi um prazer ter-te connosco.
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