Traxsource toma posição sobre música feita com IA
Num momento em que a indústria da música eletrónica vive uma transformação sem precedentes, a plataforma digital Traxsource divulgou um posicionamento oficial sobre o uso de Inteligência Artificial na produção musical. A declaração surge numa altura em que produtores, DJs e labels debatem intensamente o papel da IA na criação artística entre entusiasmo tecnológico e receio de desvalorização do trabalho humano. O texto, assinado por Brian Tappert, Marc Pomeroy e Sheldon Prince, deixa clara uma linha orientadora: a IA pode ser ferramenta, mas não substituto da criatividade humana.
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A música eletrónica sempre viveu de revoluções tecnológicas. Do primeiro sampler aos plugins que hoje cabem num portátil, cada avanço trouxe medo, entusiasmo e inevitavelmente mudança. Mas nenhuma transformação recente gerou um debate tão profundo como a chegada da Inteligência Artificial à produção musical.
Foi neste contexto que a plataforma de música eletrónica Traxsource publicou a sua posição oficial sobre o tema. Não é apenas um comunicado técnico. É um manifesto cultural.
E talvez um dos primeiros sinais claros de que a indústria está finalmente a tentar definir regras num território ainda sem mapa.
O house nasceu da tecnologia mas nunca sem alma
A história da house está ligada a máquinas.
A Roland Corporation TR-909.
Os samplers da Akai Professional.
As primeiras workstations digitais.
Cada ferramenta redefiniu o som dos clubes. Mas havia sempre uma constante: a intenção humana.
O comunicado da Traxsource reconhece isso. A IA usada como ferramenta para sound design, mixdown, masterização ou experimentação é apenas mais uma evolução natural. Tal como usar Auto-Tune, presets ou sample packs.
Mas há uma fronteira clara.
Quando uma faixa é criada apenas através de um prompt, sem decisão artística significativa, a questão deixa de ser tecnológica e passa a ser cultural.
Quem é o autor?
Quem recebe créditos?
Quem é responsável pela identidade sonora?
A plataforma responde sem hesitação: música totalmente gerada por IA não pertence ao seu catálogo.
A polarização que divide estúdios e pistas de dança
Nos últimos meses, produtores, labels e DJs dividiram-se em dois campos.
De um lado, artistas que veem a IA como ameaça direta à autenticidade. Produtores que passaram anos a desenvolver assinatura sonora sentem que o valor do craft pode ser diluído por milhares de faixas geradas automaticamente.
Do outro, criadores que lembram que cada inovação foi inicialmente rejeitada. Quando surgiram os loops digitais, também se falou de “música fácil”. Hoje fazem parte do DNA da house.
A posição da Traxsource tenta escapar a esse binário simplista. Nem demoniza a tecnologia, nem romantiza o passado.
Propõe nuance.
O problema que ninguém consegue resolver: detectar IA
Uma das partes mais honestas do comunicado é admitir o óbvio:
não existe tecnologia capaz de detectar com precisão absoluta música criada por IA.
Workflows híbridos onde produtores usam IA para gerar ideias, vocais ou texturas tornam quase impossível distinguir o que é humano e o que não é.
Mesmo assim, a plataforma propõe transparência:
Fully Human
AI Assisted
Fully AI
Um sistema baseado em confiança, pelo menos até existirem soluções reais.
Num mercado digital onde uploads são massivos, esta abordagem pode ser mais realista do que qualquer promessa de “detecção perfeita”.
O impacto real para produtores independentes
Para muitos artistas underground, a preocupação não é filosófica é económica.
Se plataformas começarem a aceitar música gerada automaticamente em grande escala, a oferta pode explodir. E quando a oferta explode, o valor unitário cai.
Já vimos isso com streaming.
Pode repetir-se com IA.
A posição da Traxsource é, neste sentido, também uma defesa da sustentabilidade da cena underground. Um sinal para labels pequenas, DJs residentes e produtores independentes de que ainda há espaços onde a autoria importa.
A questão ética que ainda ninguém resolveu
Há um ponto que paira sobre todo o debate: os dados.
Grande parte dos modelos de IA aprende com música existente. Muitas vezes sem consentimento explícito dos artistas. Isto levanta questões legais sobre direitos de autor que ainda estão longe de solução.
Sem clareza legal, a indústria está a improvisar políticas.
A decisão da Traxsource é um desses primeiros passos.
O que significa ser artista em 2026?
Talvez a pergunta mais importante não seja tecnológica.
Talvez seja cultural.
Se um algoritmo consegue gerar uma faixa tecnicamente perfeita em segundos, o valor da música passa a estar menos na técnica e mais na intenção.
História. Identidade. Contexto.
Na pista de dança, as pessoas não reagem apenas ao kick ou ao groove. Reagem à emoção que reconhecem no som.
E isso continua a ser humano.
UnderMag Opinion
A decisão da Traxsource não resolve o problema mas cria um precedente importante. Mostra que a indústria pode evoluir sem abdicar da cultura que a construiu.
A IA vai ficar.
Vai transformar workflows, acelerar ideias e criar novas linguagens sonoras.
Mas se o house sobreviver mais 40 anos, será porque conseguiu manter aquilo que sempre o definiu:
Comunidade. Imperfeição. Emoção.
Porque no fim, nenhuma tecnologia substitui o momento em que uma pista inteira levanta as mãos ao mesmo tempo.
E isso continua a ser profundamente humano.
