Rampa quer trocar os holofotes pelo processo

Rampa, produtor e DJ da Keinemusik, fala sobre o preço do sucesso, a pressão da exposição, a criatividade, a amizade e a vontade de regressar aos bastidores.

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10/12/202610 min read

Existe um momento na carreira de um artista em que crescer deixa de significar simplesmente chegar a mais pessoas. Quando um projecto ganha dimensão, transforma-se também numa responsabilidade, e aquilo que começou como uma experiência criativa entre amigos passa a envolver equipas, expectativas, negócios, público e uma atenção constante. É precisamente sobre essa mudança que Rampa fala numa das suas entrevistas mais pessoais dos últimos tempos.

Gregor Sütterlin, conhecido mundialmente como Rampa, esteve à conversa com The Gstaad Guy para um episódio do The Gstaad Guy Podcast, gravado no estúdio da Keinemusik, em Berlim, e publicado a 2 de setembro de 2026. Ao longo de mais de uma hora, o produtor e DJ alemão revisita a origem da Keinemusik, o crescimento exponencial dos últimos anos, a relação com &ME e Adam Port, a cultura de Berlim, a economia dos grandes eventos e a sua ligação à engenharia, mas acaba sobretudo por falar sobre uma questão que parece estar cada vez mais presente no seu percurso: como continuar a criar quando aquilo que construíste se tornou maior do que tu próprio.

Uma história que começou sem grandes planos

A história da Keinemusik está longe de começar como um projecto desenhado para conquistar o mundo. Rampa conheceu &ME em Berlim, nos tempos do Trixx Studios, e rapidamente os dois começaram a passar noites a produzir música. Adam Port entrou posteriormente através do circuito de festas e de amigos em comum, numa altura em que a música era ainda apenas uma extensão natural das relações que mantinham.

A Keinemusik nasceu em 2009 desse ambiente e cresceu de forma orgânica, sem uma estratégia definida ou a ambição imediata de criar uma das marcas mais reconhecidas da música electrónica contemporânea. Havia simplesmente um grupo de pessoas a produzir música e, quando surgiu a necessidade de encontrar uma casa para essas produções, a solução foi criar a própria editora.

O objectivo inicial de Rampa era, aliás, bastante mais simples: conseguir viver da música e não ter de regressar ao trabalho num lava-carros. A engenharia e a electrónica já faziam parte dos seus interesses, mas foi a música que acabou por abrir o caminho profissional.

A própria Keinemusik identifica as suas raízes numa combinação de amizade, interesses comuns e uma abordagem independente à criação, elementos que continuam a fazer parte da identidade do projecto.

Quando a dimensão muda a experiência

Durante vários anos, a Keinemusik foi crescendo sem que a mudança de escala fosse particularmente abrupta. Rampa explica que foi sobretudo nos últimos cinco ou seis anos que a visibilidade aumentou de forma significativa, com a música do colectivo a chegar a novos públicos e projectos como a presença em Grand Theft Auto a contribuir para essa exposição.

O problema de crescer é que a experiência deixa de pertencer apenas a quem a criou. À medida que o público aumenta, também aumentam as expectativas e o número de pessoas envolvidas. O que antes podia ser decidido entre amigos passa a ter consequências para uma equipa inteira e para uma estrutura que depende daquele projecto.

É uma das contradições que Rampa aborda durante a entrevista: o sucesso que inicialmente representa liberdade pode acabar por introduzir uma nova forma de pressão. Quando aquilo que criaste se torna maior do que tu, a relação com esse projecto também se transforma. Já não existe apenas a vontade de experimentar; existe a necessidade de manter uma máquina em funcionamento.

Essa mudança é particularmente evidente quando se fala dos espectáculos. A visão inicial de uma experiência próxima e sem grandes barreiras entra inevitavelmente em conflito com a realidade de eventos de grande dimensão, onde segurança, licenças, estruturas e regulamentação passam a fazer parte da equação. O ambiente de um pequeno espaço não pode ser simplesmente ampliado para milhares de pessoas sem sofrer alterações.

Para Rampa, essa diferença ajuda também a explicar por que razão a preparação de um espectáculo pode ser mais interessante do que o próprio momento em palco. Durante a preparação existe espaço para construir, experimentar e resolver problemas sem a pressão imediata do julgamento público. Depois, quando as portas abrem, aquilo que era um processo criativo passa a ser uma experiência observada por milhares de pessoas.

Entre o palco e os bastidores

A relação de Rampa com a exposição pública parece estar no centro da mudança que actualmente atravessa. Não se trata de abandonar a música ou anunciar uma retirada dos palcos, mas de reconhecer que a sua motivação está cada vez mais ligada ao trabalho que acontece longe deles.

A engenharia, a electrónica e a construção de equipamentos sempre estiveram presentes no seu percurso. Essa vertente ganhou uma expressão mais concreta através da TEILE, o projecto desenvolvido por Rampa em torno de tecnologia e equipamento para DJs, e de outros projectos ligados ao desenvolvimento de produtos e sistemas de som.

Na entrevista, essa dimensão surge não como uma actividade paralela à música, mas como uma extensão natural da sua forma de pensar. Construir um produto, resolver um problema técnico ou desenvolver uma ideia permite-lhe regressar a uma fase do processo onde ainda não existe a obrigação de agradar a ninguém. É precisamente essa liberdade que parece procurar novamente.

Antes das redes sociais, havia uma comunidade

A conversa passa também pela juventude de Rampa e pela influência que o skate teve na sua formação. Durante grande parte da adolescência, dividia o tempo entre o skate e os discos, numa época em que descobrir música ou fazer parte de uma determinada cultura implicava procurar activamente essa informação.

Não havia Spotify, YouTube ou redes sociais para entregar instantaneamente novos artistas ou tendências. Era necessário ir a lojas de discos, skate shops, clubes e encontrar outras pessoas que partilhassem os mesmos interesses. A dificuldade de acesso criava também uma maior sensação de comunidade.

Para Rampa, o skate representava muito mais do que uma actividade desportiva. Era uma cultura, uma linguagem e uma forma de pertença. Essa experiência ajuda a compreender uma parte importante da filosofia que viria a transportar para a música: a importância das relações e das comunidades que se formam à volta de uma determinada cultura. É também uma perspectiva interessante quando colocada em contraste com a actual indústria electrónica, onde grande parte da descoberta acontece através de algoritmos e onde um momento vivido numa pista pode, poucos minutos depois, transformar-se num vídeo consumido por milhares de pessoas.

O espectáculo depois do telemóvel

Rampa reconhece que os telemóveis alteraram profundamente a relação entre público e pista. Não esconde que, em determinados momentos, podem destruir parte da atmosfera de um espectáculo, mas também não defende a ideia de impor regras sobre a forma como as pessoas devem viver uma noite.

O paradoxo está na forma como a experiência é posteriormente representada. Num set de várias horas podem existir dezenas de momentos relevantes, mas são normalmente os poucos temas mais reconhecíveis que provocam uma reacção imediata e fazem surgir centenas de ecrãs no ar. São esses segundos que acabam por circular nas redes sociais e, muitas vezes, tornam-se a imagem de um espectáculo inteiro.

A questão levantada por Rampa é menos uma crítica directa aos telemóveis do que uma reflexão sobre aquilo que se perde quando uma experiência passa a ser constantemente mediada pela necessidade de a registar. A música electrónica sempre teve uma dimensão profundamente presencial; o problema é perceber até que ponto essa presença continua a ser suficiente numa cultura cada vez mais orientada para o conteúdo.

A dimensão económica por trás da festa

Outro dos aspectos menos visíveis de uma grande produção é a sua dimensão financeira. Rampa fala abertamente sobre os custos associados a grandes eventos e sobre a necessidade de equilibrar bilhetes, áreas VIP, segurança, transportes, licenças e todas as outras estruturas que o público raramente vê.

A existência de mesas VIP, por exemplo, pode ser criticada enquanto símbolo de uma determinada forma de consumo, mas também pode representar uma fonte de financiamento que ajuda a suportar uma produção mais ambiciosa. A realidade dos grandes eventos é frequentemente muito menos romântica do que aquilo que vemos no palco.

Um dos exemplos abordados na entrevista é um espectáculo em Paris, cujo processo de licenciamento demorou anos. A própria produção acabou por seguir uma lógica de contenção: em vez de tentar competir visualmente com a Torre Eiffel através de uma estrutura gigantesca, optaram por deixar o cenário falar por si. É uma decisão que resume uma ideia presente em vários momentos da conversa: nem sempre acrescentar mais significa criar uma experiência melhor. Por vezes, a solução passa precisamente por saber o que não é necessário acrescentar.

O processo é mais importante do que o produto

A parte mais reveladora da entrevista surge quando Rampa fala directamente sobre criatividade. Para o produtor, existe uma diferença fundamental entre criar uma obra e apresentá-la ao mundo.

Enquanto está no processo, existe liberdade. Uma ideia pode ser alterada, destruída ou simplesmente abandonada sem que isso tenha consequências. Depois do lançamento, essa mesma criação deixa de ser privada e passa a estar sujeita a expectativas, números, opiniões e comparações. É aí que o sucesso pode tornar-se particularmente difícil. Depois de encontrares uma fórmula que funciona, surge inevitavelmente a expectativa de a repetir. O artista deixa de estar apenas preocupado em descobrir algo novo e começa também a lidar com a possibilidade de falhar perante aquilo que já conseguiu. Rampa parece encontrar maior conforto precisamente no momento anterior a essa exposição. A criação interessa-lhe mais quando ainda não existe um resultado obrigatório.

Essa filosofia ajuda a explicar a vontade de dedicar mais tempo ao estúdio, à engenharia e a novos projectos. Não é necessariamente uma saída da música, mas uma tentativa de recuperar a liberdade que existia quando tudo começou.

Criar em conjunto

A colaboração surge igualmente como uma das bases do seu percurso. Rampa assume que dificilmente teria construído uma carreira totalmente a solo e fala da importância de trabalhar com outras pessoas, não apenas dentro da música, mas também em áreas como tecnologia, design ou desenvolvimento de produtos.

A sua visão aproxima-se da ideia de abundância em vez de competição: a criatividade de uma pessoa pode alimentar a criatividade de outra e diferentes áreas podem encontrar pontos de contacto inesperados. Essa abertura parece estar presente tanto na forma como encara a música como nos projectos empresariais que foi desenvolvendo ao longo dos anos. É uma abordagem que também ajuda a explicar a longevidade da Keinemusik. Mais do que um simples colectivo de DJs e produtores, o projecto tornou-se uma estrutura construída sobre relações pessoais e interesses partilhados.

Berlim como ponto de partida

Apesar da dimensão internacional que a Keinemusik alcançou, Berlim continua a ocupar um lugar central na história de Rampa. Foi na cidade que encontrou as pessoas com quem viria a construir a sua carreira, mas também um ambiente cultural que lhe permitiu experimentar sem a pressão imediata de transformar cada ideia num negócio.

Estúdios, clubes, lojas de discos, skate e uma comunidade criativa forte criaram o contexto necessário para que aquela geração pudesse desenvolver os seus projectos. Rampa chega mesmo a reconhecer que, sem Berlim, o seu percurso poderia ter sido completamente diferente. A cidade representa, nesse sentido, mais do que uma localização geográfica. É parte da infraestrutura cultural que tornou possível a sua carreira.

Proteger aquilo que começou com amizade

A dimensão internacional trouxe também novos desafios para a relação entre os elementos da Keinemusik. Rampa, &ME, Adam Port e a restante equipa construíram o projecto a partir de relações pessoais, mas tiveram de encontrar novas formas de proteger essas relações à medida que a exposição aumentou.

Nos últimos anos, passaram a dedicar mais atenção à própria dinâmica do grupo, incluindo momentos específicos para conversar sobre o projecto e sobre aquilo que cada um pretende do futuro. A intenção é garantir que o crescimento profissional não acaba por destruir a estrutura pessoal que tornou tudo possível. É uma preocupação particularmente relevante num projecto desta dimensão. Quando uma amizade se transforma numa empresa, numa editora, numa marca e numa carreira internacional, manter a relação original exige trabalho.

Um novo capítulo

Rampa não apresenta uma data para deixar os palcos e continua a ter uma agenda de actuações. O que parece estar a mudar é a proporção entre aquilo que acontece em palco e aquilo que acontece nos bastidores.

Nos próximos meses, a sua atenção deverá estar cada vez mais dividida entre música, engenharia, desenvolvimento de produtos e outros projectos. A vontade de passar menos tempo em aviões e mais tempo no estúdio não representa necessariamente uma despedida da carreira de DJ, mas antes a abertura de um novo capítulo.

Depois de anos a construir uma das histórias mais particulares da electrónica contemporânea, Rampa parece agora interessado em voltar àquilo que existia antes da escala, da pressão e da exposição: a possibilidade de construir simplesmente porque existe curiosidade em descobrir o que acontece a seguir.

Opinião Undermag

O mais interessante nesta entrevista não é Rampa falar em fazer menos concertos. É perceber porque quer fazê-lo. Depois de conquistar uma escala que muitos artistas passam a carreira inteira a procurar, a sua prioridade parece estar a voltar ao processo, à experimentação e à liberdade de criar sem a obrigação de corresponder constantemente às expectativas do público. Num momento em que a música electrónica está cada vez mais ligada ao conteúdo, aos números e à exposição, a ideia de criar sem estar permanentemente a pensar no resultado é quase uma atitude de resistência. Talvez o verdadeiro luxo, depois de chegar ao topo, seja precisamente poder voltar a criar como se ninguém estivesse a olhar.

Fonte: entrevista de Rampa ao The Gstaad Guy Podcast, gravada no estúdio da Keinemusik, em Berlim, e publicada a 2 de setembro de 2026. A informação e as declarações utilizadas neste artigo foram retiradas da entrevista e contextualizadas editorialmente pela Undermag.

Ver a entrevista completa no YouTube

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