O Set de Uma Hora Está a Matar a Arte do DJing?
Durante décadas, a cultura clubbing foi construída sobre uma ideia simples: tempo. Tempo para criar tensão, tempo para errar, tempo para surpreender, tempo para contar uma história através da música. Mas, na era dos festivais, do TikTok e dos line-ups inflacionados, o tempo tornou-se um luxo. Hoje, o formato dominante é o set de 60 minutos rápido, intenso e descartável. A pergunta que muitos artistas e puristas colocam é: será que este modelo está a matar a verdadeira arte do DJing?
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De jornadas sonoras a highlight reels
No passado, DJs residentes eram responsáveis por guiar uma pista durante uma noite inteira. Sets de 4, 6 ou até 8 horas não eram exceção, mas sim a norma. Esse formato permitia criar uma narrativa musical uma progressão emocional que transformava uma noite numa experiência quase cinematográfica.
Hoje, a realidade é diferente. Line-ups com 20 ou 30 nomes, slots cronometrados ao minuto e uma pressão constante para “causar impacto imediato” transformaram muitos sets em coleções de bangers. A subtileza, o groove progressivo e a construção orgânica deram lugar a drops instantâneos e momentos virais.
A perda da arte da programação
Ser DJ não é apenas misturar faixas tecnicamente. É programar uma viagem: perceber o público, ler a energia da sala, saber quando subir ou descer a intensidade. Essa habilidade exige tempo tanto na pista como na aprendizagem.
Com sets cada vez mais curtos, muitos DJs nunca têm oportunidade de desenvolver essa sensibilidade. O resultado? Performances eficazes, mas muitas vezes previsíveis. Em vez de arriscar, os artistas apostam em temas reconhecíveis para garantir reação imediata, sacrificando identidade e storytelling.
O modelo comercial que mudou tudo
A popularização dos festivais e dos grandes eventos trouxe benefícios evidentes: mais visibilidade, mais diversidade de artistas e maior alcance global. Mas também trouxe uma lógica de consumo rápido.
Para promotores, é mais fácil vender bilhetes com dezenas de nomes no cartaz do que apostar em poucos artistas com sets longos. Cada slot representa uma base de fãs, uma campanha de marketing, um pico de tráfego nas redes sociais. O DJ torna-se, muitas vezes, um produto numa grelha horária, não um narrador de experiências.
A magia dos sets longos (e porque ainda importam)
Os sets prolongados permitem algo raro na cultura atual: paciência.
Um DJ pode explorar texturas, testar ideias, falhar e recuperar. Pode introduzir faixas que demoram minutos a revelar o seu potencial e criar momentos verdadeiramente memoráveis.
Para o público, isso significa imersão. Uma noite deixa de ser uma sequência de momentos isolados e passa a ser uma jornada contínua, onde cada faixa tem contexto e propósito.
O futuro: velocidade ou profundidade?
O debate não é sobre eliminar line-ups extensos ou festivais. A diversidade é essencial. Mas talvez seja tempo de reequilibrar o formato:
Menos artistas por noite, com sets mais longos
Curadoria mais cuidada em vez de quantidade
Espaço para storytelling musical
Porque, no final, a cultura eletrónica sempre foi sobre experiência coletiva, não apenas sobre métricas e algoritmos.
Conclusão
O set de uma hora não matou o DJing mas está a mudar profundamente a sua essência. A arte continua viva, mas precisa de espaço para respirar. O desafio da nova geração é simples e complexo ao mesmo tempo: transformar 60 minutos em algo com alma… ou lutar para recuperar o tempo perdido.
