LICK: o fim de uma era
O LICK encerrou definitivamente a 22 de agosto de 2026, após 36 anos de história. Recordamos o legado da antiga Kadoc, o impacto na noite algarvia e o que significa o fim de uma era.
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Depois de 36 anos de história, o LICK encerrou definitivamente as portas a 22 de agosto. A antiga Kadoc atravessou gerações, tendências e diferentes fases da música eletrónica, tornando-se uma das referências incontornáveis da noite algarvia. O seu desaparecimento deixa mais do que um espaço vazio: deixa uma pergunta sobre o futuro da cultura de clubes em Portugal. Há clubes que fecham. E depois há clubes cujo encerramento representa o fim de uma era. O LICK pertence claramente à segunda categoria.
No passado dia 22 de agosto, aquele espaço em Boliqueime recebeu a sua última noite. Paco Osuna, Ilario Alicante, Rafa Barrios e Javi Reina foram os nomes escolhidos para fechar oficialmente um capítulo que começou há mais de três décadas. A última noite, integrada numa programação desenvolvida em parceria com a LOOP e a FABRIK Madrid, não foi apenas mais uma data no calendário de verão algarvio. Foi a despedida de um espaço que marcou profundamente a história da música eletrónica na região. E talvez seja precisamente por isso que o encerramento do LICK mereça ser olhado para além da notícia.
De Kadoc a LICK
A história daquele espaço começou em 1990, quando abriu portas como Kadoc. Durante décadas, o nome tornou-se sinónimo de grandes noites no Algarve, acompanhando a evolução da música de dança e recebendo diferentes gerações de artistas e público.
O Kadoc surgiu numa época muito diferente da atual. A cultura de clubes ainda estava a construir a sua identidade em Portugal e a música eletrónica começava a ganhar uma dimensão que viria a transformar profundamente a noite europeia. Ao longo dos anos, o espaço tornou-se parte dessa transformação.
Em 2017, surgiu uma nova fase. O Kadoc passou a chamar-se LICK Algarve, assumindo uma nova identidade e procurando adaptar-se a uma indústria que entretanto tinha mudado profundamente.
Mudaram os artistas, mudaram os estilos, mudou o público e mudou a própria forma de consumir música eletrónica. Mas uma coisa permaneceu: a capacidade daquele espaço para continuar a fazer parte do mapa da noite algarvia. Essa longevidade é provavelmente uma das características que melhor definem o LICK. Poucos clubes conseguem atravessar 36 anos de história.
Mais do que uma discoteca
É fácil reduzir um clube às suas paredes, à pista de dança, à cabine ou à capacidade de receber grandes artistas. Mas um clube é muito mais do que isso. É um ponto de encontro. É memória. É uma parte da vida de quem lá passou. Para algumas pessoas, o LICK será associado às primeiras noites passadas numa grande discoteca. Para outras, será a viagem até ao Algarve, os amigos, as longas noites de verão e os amanheceres depois de horas de música.
Para os profissionais que trabalharam naquele espaço, a história será naturalmente diferente. DJs, produtores, promotores, técnicos, bartenders, equipas de segurança, fotógrafos, videógrafos e tantos outros profissionais construíram, noite após noite, aquilo que o público via durante algumas horas.
É precisamente essa dimensão humana que muitas vezes desaparece quando falamos do encerramento de um clube. Um espaço pode fechar de um dia para o outro. As memórias não.
O Algarve e a cultura de clubes
O Algarve construiu ao longo das últimas décadas uma identidade muito própria em torno da noite. A região é frequentemente apresentada internacionalmente através das suas praias, hotéis, restaurantes e turismo, mas existe outra dimensão que também ajudou a definir o verão algarvio: a música eletrónica. Clubes como a antiga Kadoc, e mais tarde o LICK, fizeram parte dessa identidade. Foram espaços capazes de receber público nacional e internacional e de colocar o Algarve no circuito de artistas que percorrem as principais pistas europeias. Essa importância não pode ser medida apenas pelo número de pessoas que entravam pela porta. Um clube cria uma cultura. Cria hábitos. Cria comunidades. E, sobretudo, cria referências. Durante 36 anos, o espaço que começou como Kadoc conseguiu fazer precisamente isso.
Uma última temporada à altura da história
O encerramento poderia ter acontecido de forma discreta. Não aconteceu. A última temporada procurou assumir o peso histórico daquele momento através de uma programação internacional que contou com nomes como Fatima Hajji, Joseph Capriati, The Martinez Brothers e Masaka Africana, antes da última noite com Paco Osuna, Ilario Alicante, Rafa Barrios e Javi Reina. A escolha dos artistas mostrou também que o LICK queria terminar a sua história olhando para a pista. Sem grandes discursos. Sem tentar transformar o encerramento numa peça de museu. A música continuou a ser o centro. E talvez não pudesse ser de outra forma. Um clube deve despedir-se como viveu: com pessoas na pista, DJs na cabine e música a ocupar o espaço.
Quando um clube fecha, o que fica?
Esta é talvez a questão mais interessante. Porque o encerramento de um espaço histórico não significa apenas que deixamos de ter mais um local para sair à noite. Significa que desaparece um espaço onde diferentes gerações construíram uma parte da sua própria história. O LICK não poderá ser substituído simplesmente por outro clube. Pode surgir outro espaço, com melhor tecnologia, uma produção maior, um sistema de som mais moderno ou uma programação ainda mais internacional. Mas não poderá reproduzir aquilo que foram 36 anos de história. Não se consegue construir memória instantaneamente. É preciso tempo. E é precisamente o tempo que torna o encerramento do LICK tão relevante.
Uma indústria que também mudou
A despedida do LICK acontece numa altura em que a própria indústria da música eletrónica atravessa uma transformação profunda. Os grandes festivais ganharam uma dimensão enorme. Os eventos de curta duração multiplicaram-se. Os conceitos itinerantes cresceram. As redes sociais passaram a influenciar a descoberta de música, artistas e experiências. Ao mesmo tempo, manter um clube aberto durante todo o ano tornou-se uma operação cada vez mais complexa.
Custos de produção, licenças, equipas, segurança, artistas internacionais e alterações nos hábitos do público são apenas algumas das variáveis que condicionam o futuro destes espaços. É por isso que o encerramento do LICK deve ser analisado também neste contexto. Não é apenas o desaparecimento de um clube. É um reflexo de uma indústria que está a mudar.
O que perde a noite algarvia?
O Algarve continuará a ter uma forte oferta de nightlife. Continuarão a existir clubes, festas, beach clubs, festivais e novos conceitos. Mas há uma diferença entre ter uma grande oferta de eventos e possuir clubes com identidade histórica. O LICK era uma dessas referências. A sua dimensão e longevidade permitiam-lhe ocupar um espaço específico no ecossistema da noite algarvia. Com o seu encerramento, a região perde uma parte dessa memória. E talvez essa seja a verdadeira dimensão da despedida. Não estamos apenas perante o fim de um negócio. Estamos perante o desaparecimento de um lugar que ajudou várias gerações a viver a música eletrónica.
Opinião Undermag
Há uma coisa que a cultura de clubes portuguesa precisa urgentemente de aprender: não podemos esperar pelo encerramento de um espaço para percebermos o seu valor. Durante anos, é fácil assumir que determinados clubes estarão sempre ali. O público muda. Os artistas mudam. Os promotores mudam. As tendências mudam. Mas alguns espaços permanecem. E quando finalmente desaparecem, percebemos que estávamos perante algo que não era substituível. O LICK é precisamente esse caso. Podemos discutir os seus diferentes períodos, as suas escolhas, os seus momentos melhores ou menos conseguidos. Podemos discutir a transformação do espaço, da programação ou da própria indústria. Mas não podemos apagar aquilo que 36 anos representam. Uma geração que cresceu com a Kadoc é hoje adulta. Outra geração conheceu o LICK. Muitos profissionais construíram parte das suas carreiras naquele espaço. Muitos DJs passaram pela cabine. Milhares de pessoas têm pelo menos uma história para contar. Isso é património da cultura clubbing. E é aqui que o encerramento do LICK deve servir de alerta.
Portugal tem uma memória incrível de clubes, promotores, DJs e movimentos que ajudaram a construir a nossa cultura de música eletrónica. Mas temos também uma tendência preocupante para esquecer rapidamente. Quando um espaço fecha, começamos imediatamente a falar do próximo. É normal. A música eletrónica vive do futuro. Mas uma cena saudável também precisa de memória. Precisamos de documentar histórias, preservar arquivos, entrevistar quem esteve lá, guardar fotografias, flyers, gravações e testemunhos. Precisamos de contar às novas gerações de onde veio esta cultura e quem ajudou a construí-la. Porque daqui a dez, vinte ou trinta anos, outros clubes vão fechar. E gostaríamos que, nessa altura, alguém tivesse contado a história deles. O LICK encerrou a 22 de agosto de 2026. A música continuará. O Algarve continuará a dançar. Novos clubes irão aparecer e novas gerações irão ocupar as pistas. Mas aquele espaço nunca mais será o mesmo. E talvez seja precisamente isso que torna um clube verdadeiramente histórico.
Quando as luzes se apagam pela última vez, percebemos que não estávamos apenas numa discoteca. Estávamos dentro de uma história.
Obrigado, LICK.
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