Kura apresenta “Saudade”: o álbum que marca uma nova fase da electrónica portuguesa

Depois de mais de uma década nos maiores palcos do mundo, Kura lança o seu primeiro longa-duração, Saudade um projecto colaborativo que une electrónica global, emoção portuguesa e uma nova maturidade artística.

MÚSICA

2/24/20264 min read

No dia 20 de Fevereiro de 2026, o DJ e produtor português Kura revelou o seu primeiro álbum de estúdio, intitulado Saudade, um projecto que representa uma viragem significativa na sua carreira e na forma como a electrónica portuguesa se articula com a identidade musical nacional. Depois de mais de uma década a conquistar pistas de dança em todo o mundo, desde Lisboa a Ibiza e até grandes festivais internacionais, o artista decide agora entregar ao público um corpo de trabalho que não se limita à energia de clubbing, mas que também explora melodias introspectivas, colaborações profundas e uma narrativa emocional que atravessa fronteiras estilísticas.

O lançamento de Saudade surge como um momento de transformação criativa na carreira de Kura cujo nome verdadeiro é Rúben de Almeida Barbeiro e reflecte uma vontade clara de expandir o seu universo sonoro, aproximando a sua assinatura electrónica internacional de uma abordagem mais melódica e emotiva que dialoga com as sensibilidades da música portuguesa contemporânea.

Uma viagem sonora que une clubbing e emoção

Enquanto DJ, Kura construiu uma reputação sólida ao longo dos anos, com música lançada por editoras de referência e presença assídua nos line-ups de festivais globais. No entanto, com Saudade, o artista acentua uma faceta mais narrativa, dando prioridade à história por detrás da música e à ligação emocional que se pode criar com o ouvinte um movimento que revela maturidade e ambição artística.

O álbum é composto por 14 faixas originais, que combinam estética electrónica com colaborações vocais e instrumentais que atravessam géneros e gerações. Ao longo de cerca de 45 minutos, Kura constrói um discurso musical onde a pulsação das pistas de dança se mistura com letras e atmosferas que evocam sentimento, introspecção e identidade cultural.

Colaborações que transcendem estilos

Uma das maiores forças de Saudade é o seu carácter colaborativo. Kura reuniu um elenco diversificado de artistas portugueses desde nomes consagrados até vozes emergentes reforçando um retrato coletivo da música nacional atual. Entre os convidados que participam no álbum, destacam-se os seguintes:

  • Julinho KSD em Início e Final

  • Diogo Piçarra em Sem Direção

  • Nuno Ribeiro em Fado Triste

  • Jessica Cipriano em duas faixas (Livre e Canção do Mar)

  • Soraia Ramos em Another Day

  • Riic Wolf em Waiting For So Long

  • Jéssica Gaspar em Paz

  • Jazzy Moon e Blasted Mechanism em Stranger

  • Bia Caboz em Sentir Saudade

  • Áurea em Break Us

  • Blasted Mechanism novamente em Light It Up

Esta lista de colaboradores mostra uma intenção clara: Kura não pretende apenas lançar um álbum eletrónico, mas criar um diálogo sonoro entre diferentes mundos musicais. Cada parceria acrescenta textura e significado, elevando o projecto para além de um simples objecto de dance music.

Faixas em destaque e o impacto cultural

Se algumas faixas, como Início e Final (feat. Julinho KSD), mostram o lado mais direccionado para as pistas, outras, como Sentir Saudade em colaboração com a fadista Bia Caboz revelam o potencial de cruzamento entre universos musicais aparentemente distantes. Esta faixa, que já vinha a ganhar destaque antes do lançamento completo do álbum, combina a tradição melódica portuguesa com elementos rítmicos electrónicos e foi um dos primeiros sinais do novo caminho criativo que Kura queria explorar.

Ao integrar artistas como Diogo Piçarra, cuja carreira está associada ao pop nacional, e Blasted Mechanism, com o seu universo alternativo e experimental, o álbum funciona como um mosaico estilístico que reflete a diversidade e vitalidade da música portuguesa contemporânea.

A identidade portuguesa como ponto de encontro global

O título do álbum Saudade não é apenas um nome artístico, mas também um reflexo do conceito que percorre o trabalho. Saudade é um termo profundamente enraizado na cultura portuguesa, traduzindo um sentimento que é ao mesmo tempo nostálgico, belo e universal. Ao trazer essa noção para um contexto electrónico, Kura cria um ponto de conexão entre aquilo que é tipicamente nacional e aquilo que é globalmente compreensível uma linguagem musical que pode ser apreciada em qualquer parte do mundo.

Esta abordagem representa um privilégio raro na música electrónica: ser fiel às suas raízes sem sacrificar o alcance internacional, encontrando um equilíbrio entre tradição e modernidade que poucos artistas conseguem alcançar.

Um capítulo importante para a electrónica nacional

Num período em que o consumo de música tende a privilegiar singles e linhas isoladas, a decisão de lançar um álbum completo com uma narrativa conceptual é, por si só, uma afirmação artística. Saudade desafia essa tendência ao oferecer uma experiência coesa, onde cada faixa contribui para um todo maior e temático.

Para a cena electrónica portuguesa, este lançamento pode ser um ponto de viragem. Ao integrar artistas de diferentes áreas e criar um projecto com identidade genuína, Kura não só amplia a sua própria trajetória  como também amplia as fronteiras do que se entende por música electrónica no contexto português.

Conclusão: mais do que um álbum, um manifesto artístico

Saudade representa o culminar de anos de experiência, evolução técnica e coragem criativa. Não se trata apenas de um catálogo de faixas, mas de uma viagem sonora que convida o ouvinte a sentir, reflectir e conectar-se.

Para Kura, este álbum simboliza uma nova etapa uma em que a música electrónica de pista se funde com emoção, narrativa e colaboração cultural.

E, para a música portuguesa, Saudade poderá vir a ser lembrado como um marco: não apenas um álbum eletrônico, mas uma obra que abre portas a um diálogo mais profundo entre géneros, gerações e públicos.