Festivais britânicos ganham novo fôlego
O Reino Unido apresentou um novo plano para reforçar a indústria da música, com licenças de festivais mais longas, um investimento de 45 milhões de libras e novas medidas de apoio a artistas, promotores e espaços culturais.
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Durante os últimos anos, a indústria da música ao vivo tem enfrentado desafios sem precedentes. O aumento dos custos operacionais, a inflação, as dificuldades no licenciamento de eventos e o encerramento de inúmeras salas e festivais colocaram em causa a sustentabilidade de um setor que continua a ser um dos maiores motores culturais e económicos da Europa.
Agora, o Governo do Reino Unido apresentou uma estratégia ambiciosa que pretende inverter essa tendência. O programa, denominado "Turn It Up: Our Plan for Music", combina investimento público, simplificação administrativa e apoio direto a artistas, promotores e espaços culturais, numa tentativa de garantir um futuro mais sólido para a indústria musical britânica.
Mais estabilidade para quem organiza festivais
Uma das medidas que mais chamou a atenção da indústria diz respeito às licenças para festivais e eventos de música ao vivo.
Em vez de obrigar muitos promotores a repetir processos burocráticos todos os anos, o Governo pretende permitir:
licenças mínimas de três anos para novos festivais;
licenças até cinco anos para eventos já estabelecidos.
Esta alteração poderá representar uma mudança significativa na forma como os festivais planeiam o seu crescimento.
Quando um promotor sabe que pode contar com uma autorização durante vários anos, torna-se mais fácil negociar patrocínios, contratar artistas internacionais, investir em infraestruturas e assumir riscos criativos.
Para muitos festivais independentes, esta previsibilidade poderá ser a diferença entre sobreviver ou desaparecer.
Um investimento de 45 milhões de libras
O plano inclui ainda um reforço financeiro importante.
O Governo anunciou mais 15 milhões de libras, elevando o pacote total para 45 milhões de libras, destinados ao chamado Music Growth Package.
Segundo as autoridades britânicas, este investimento deverá apoiar:
mais de 2.000 projetos musicais;
cerca de 40.000 artistas e profissionais da indústria;
editoras independentes;
managers;
publishers;
músicos em diferentes fases da carreira.
Uma das novidades é precisamente o alargamento do apoio a artistas que já ultrapassaram a fase emergente, mas que continuam a necessitar de financiamento para consolidar as suas carreiras.
Bibliotecas transformadas em espaços de criação
Outro ponto particularmente interessante é a aposta na educação e no acesso à música.
O Governo pretende investir 12,5 milhões de libras para transformar bibliotecas públicas em espaços criativos equipados com:
estúdios de gravação;
mesas de mistura;
cabines de gravação;
equipamento de produção musical;
áreas para pequenas atuações.
O objetivo passa por aproximar a música das comunidades locais e criar novos pontos de acesso para jovens criadores que, muitas vezes, não dispõem de recursos financeiros para utilizar estúdios profissionais.
Menos burocracia também para pequenos eventos
Outra alteração importante prende-se com os Temporary Event Notices (TENs).
O número máximo anual destes pedidos passará de 15 para 20 por espaço, permitindo que bares, clubes e pequenos promotores possam organizar mais eventos sem recorrer a processos de licenciamento mais complexos.
Embora possa parecer uma mudança pequena, para muitos espaços independentes representa um aumento direto da atividade e da programação cultural.
O que significa isto para a música eletrónica?
Embora o plano não seja direcionado exclusivamente para a música eletrónica, é difícil ignorar o impacto que poderá ter neste setor.
Grande parte da cultura eletrónica vive precisamente dos:
festivais independentes;
pequenos clubes;
promotores locais;
eventos sazonais.
São estes agentes que normalmente enfrentam maiores dificuldades quando os custos aumentam ou quando os processos administrativos se tornam demasiado pesados.
Mais estabilidade no licenciamento significa maior capacidade para investir em artistas, cenografia, produção técnica e experiências para o público.
No fundo, significa criar condições para que a cultura possa crescer em vez de apenas sobreviver.
E Portugal?
É inevitável olhar para esta notícia e estabelecer um paralelo com a realidade portuguesa.
Portugal possui uma forte tradição de festivais e eventos de música eletrónica, mas continua a enfrentar desafios relacionados com processos de licenciamento, custos de produção e dificuldades sentidas por pequenos promotores.
Naturalmente, os contextos legais são diferentes, mas a estratégia britânica demonstra uma visão interessante: encarar a música não apenas como entretenimento, mas como um investimento económico, cultural e social.
Num momento em que vários espaços independentes lutam pela sobrevivência e em que muitos festivais operam com margens cada vez mais reduzidas, políticas que tragam previsibilidade e apoio estrutural podem fazer toda a diferença.
A visão da UnderMag
Na UnderMag acreditamos que o futuro da música eletrónica não depende apenas dos grandes festivais ou dos artistas mais mediáticos.
Depende também dos pequenos clubes, das promotoras independentes, dos festivais emergentes e de todos aqueles que continuam a investir na cultura mesmo quando as condições são difíceis.
O plano agora apresentado pelo Reino Unido mostra que é possível pensar a música a longo prazo. Reduzir burocracia, apoiar criadores e facilitar a organização de eventos não beneficia apenas a indústria: fortalece todo o ecossistema cultural.
Resta saber se outros países europeus seguirão este exemplo. Se isso acontecer, estaremos perante uma mudança que poderá marcar a próxima década da música ao vivo.
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