Do Kremlin ao Santuário: uma nova vida para a noite lisboeta

O antigo Kremlin dá lugar ao Santuário, um novo espaço de Lisboa que cruza música electrónica, arte, gastronomia e experiências numa nova abordagem à noite.

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10/2/20265 min read

Uma das moradas mais emblemáticas da noite lisboeta abre hoje um novo capítulo. Onde durante décadas existiu o Kremlin nasce agora o Santuário, um espaço que cruza música electrónica, arte, gastronomia e experiências para lá da pista de dança.

Há espaços que fazem parte da história de uma cidade mesmo depois de fecharem as portas. O Kremlin é um desses casos.

Inaugurado em 1988 nas Escadinhas da Praia, em Santos, o clube tornou-se uma das referências da noite lisboeta e um dos lugares associados à afirmação da cultura electrónica em Portugal. Durante os anos 90, o espaço acompanhou uma transformação profunda na forma como se ouvia e vivia música de dança em Portugal, tornando-se uma das moradas incontornáveis de uma geração que descobria novas linguagens vindas do house e da música electrónica.

A história do Kremlin está também ligada a nomes fundamentais da electrónica nacional, entre eles DJ Vibe, cuja residência no clube ajudou a consolidar a importância do espaço numa altura em que Lisboa começava a afirmar-se no mapa internacional da cultura clubbing.

Mais do que uma discoteca, o Kremlin tornou-se um lugar de memória. A sua localização, os arcos de pedra e a própria arquitectura contribuíram para criar uma identidade que atravessou diferentes épocas da noite lisboeta. Mas nenhuma história permanece imóvel.

Um novo capítulo nas Escadinhas da Praia

Depois de décadas associadas ao nome Kremlin, as mesmas portas recebem agora uma identidade completamente diferente.

Chama-se Santuário e o projecto é liderado por Filipe Martins, conhecido no universo da música electrónica como Dub Tiger, em parceria com o empresário Fernando Rodrigues. A intenção não é recuperar o Kremlin com outro nome, mas construir um conceito próprio a partir de uma morada que já carrega uma forte memória colectiva.

O novo espaço foi totalmente redesenhado e assume uma abordagem mais abrangente à experiência nocturna. A música electrónica continua a estar no centro, mas passa a dividir o espaço com arte, gastronomia, design e produção audiovisual.

A sala principal pretende criar uma relação contínua entre som e imagem, com uma narrativa visual assinada pelo artista RAF. Existe também o Éden, uma área mais reservada, enquanto diferentes zonas do espaço podem assumir configurações distintas consoante o tipo de evento.

A proposta aproxima-se, assim, de uma ideia que tem ganho espaço na noite contemporânea: o clube enquanto experiência cultural e não apenas como lugar para dançar.

Da pista para outros momentos do dia

Uma das diferenças mais evidentes em relação ao modelo tradicional de discoteca está precisamente na utilização que o Santuário pretende dar ao espaço. Além da programação nocturna, o projecto quer receber eventos corporativos, activaçōes de marca, jantares privados, experiências gastronómicas, provas de vinho e outros formatos que podem ocupar o espaço durante diferentes períodos do dia.

A componente de after-work é outra das apostas anunciadas, procurando aproximar o espaço de um público que nem sempre procura exclusivamente uma noite de clubbing. É uma abordagem que acompanha uma transformação mais ampla na própria indústria. Os clubes contemporâneos procuram cada vez mais criar diferentes fontes de actividade e transformar os seus espaços em lugares que possam existir para lá das horas de maior intensidade da pista. No caso do Santuário, essa intenção é assumida desde o princípio.

Uma mudança que também nasce da necessidade

A transformação do antigo Kremlin acontece depois de um período particularmente complicado para o espaço. Em setembro de 2025, o clube foi obrigado a suspender a actividade na sequência de uma decisão do Tribunal Judicial de Lisboa relacionada com queixas de moradores sobre ruído. O processo esteve ligado não apenas ao som audível, mas também às vibrações transmitidas para edifícios vizinhos, levando a intervenções de isolamento no espaço. A mudança de identidade surge, portanto, depois de uma intervenção que acabou por representar também uma oportunidade para repensar todo o projecto. Em vez de simplesmente reabrir o Kremlin, a equipa optou por começar de novo. E essa distinção é importante. Os responsáveis pelo projecto reconhecem o peso das décadas de história do espaço, mas assumem que o Santuário pretende seguir uma direcção própria. A memória do Kremlin permanece, mas deixa de ser o conceito central.

A primeira noite

A nova história começa esta sexta-feira, 2 de outubro. A partir das 23h59, o Santuário recebe a sua Grand Opening, com DJ Maddox b2b Nuak, Hugo Villanova, Dub Tiger e Daveed no alinhamento da primeira noite. A programação apresentada pela organização coloca o house como ponto de partida, atravessando também territórios de deep house e tech house.

Mais do que uma inauguração simbólica, a primeira noite funciona como uma primeira declaração de intenções. Diferentes perspectivas musicais encontram-se na mesma pista, num espaço que pretende combinar música, arte e ambiente numa experiência contínua.

O primeiro fim de semana prolonga-se ainda com uma noite protagonizada por Dub Tiger e Daveed, mantendo o house como base musical e dando continuidade à nova programação do espaço. É, portanto, a partir destas primeiras noites que começará verdadeiramente a perceber-se qual será o lugar do Santuário no novo mapa da noite lisboeta.

Lisboa depois do Kremlin

A abertura do Santuário acontece num momento em que Lisboa continua a atravessar uma transformação profunda na sua vida nocturna. Nas últimas décadas, a cidade viu nascer, crescer e desaparecer espaços que ajudaram a definir diferentes gerações da cultura electrónica. Alguns ficaram associados a determinados sons, outros a determinadas comunidades, outros simplesmente a noites que permanecem na memória de quem lá esteve. O Kremlin pertence claramente a essa última categoria, mas também à primeira. Foi um espaço que acompanhou a própria evolução da música electrónica em Portugal. Por isso, substituí-lo por um projecto completamente diferente implica mais do que mudar um nome à porta.

Implica responder a uma pergunta inevitável: como pode uma morada histórica continuar relevante quando o público, a cidade e a própria noite já são diferentes?

O Santuário parece querer responder através da experiência. A música continua a ser o ponto de partida, mas a proposta procura acrescentar outras dimensões ao espaço. Som, imagem, arte, gastronomia e arquitectura passam a fazer parte da mesma equação. Se essa combinação conseguirá criar uma identidade tão forte como a que o Kremlin construiu ao longo das décadas, só o tempo poderá dizer. Para já, existe uma certeza: nas Escadinhas da Praia, a história não terminou. Mudou de nome.

Opinião UnderMag

Há uma tendência cada vez mais evidente na noite contemporânea: os clubes deixaram de ser apenas lugares onde se vai ouvir música durante algumas horas. A arquitectura, a gastronomia, a arte, a imagem e a própria forma como o público ocupa o espaço passaram a fazer parte da experiência.

O Santuário parece querer trabalhar precisamente nesse território. Mas existe também uma responsabilidade especial quando se ocupa uma morada com o peso histórico do Kremlin. A memória de um clube não está apenas nas paredes ou nos nomes que passaram pela cabine. Está nas pessoas, nas noites, nos sons e numa determinada ideia de liberdade que marcou gerações.

Por isso, o verdadeiro interesse deste projecto estará menos na tentativa de substituir o Kremlin e mais na capacidade de construir uma identidade própria sem apagar aquilo que tornou esta morada especial.

Lisboa volta a ter música nas Escadinhas da Praia. Agora começa uma nova história.

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