A Música Electrónica é Agora Património Cultural Imaterial em França
Durante décadas, a música electrónica viveu num território ambíguo. Amada por milhões, incompreendida por muitos. Presente nas pistas de dança, mas ausente dos livros de história cultural. Hoje, esse ciclo começa finalmente a fechar-se.
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A França reconheceu oficialmente a música electrónica como Património Cultural Imaterial, inscrevendo-a no seu inventário nacional. Um gesto histórico que valida não apenas um género musical, mas todo um ecossistema cultural construído por DJs, produtores, clubes, colectivos, labels e comunidades que fizeram da pista de dança um espaço de expressão, liberdade e identidade.
Este reconhecimento não é apenas simbólico. É político, cultural e profundamente geracional.
Do Underground à História Oficial
A música electrónica nasceu fora das instituições. Cresceu em caves, armazéns abandonados, festas ilegais, clubes marginalizados e rádios pirata. Durante anos, foi associada ao excesso, à transgressão e à contracultura. Em França, tal como noutros países europeus, raves e free parties foram alvo de repressão antes de serem entendidas como fenómenos culturais legítimos.
Hoje, o Estado francês assume aquilo que a comunidade sempre soube:
a música electrónica faz parte da identidade cultural do país.
Este reconhecimento integra práticas musicais, saberes técnicos, estéticas sonoras, linguagens visuais, modos de celebração colectiva e transmissão de conhecimento entre gerações. Não se trata apenas do som, mas de tudo o que o envolve.
O Que Significa Ser Património Cultural Imaterial?
O património cultural imaterial diz respeito a tradições vivas — práticas que continuam a evoluir e a ser transmitidas dentro das comunidades. Ao contrário de um monumento físico, é algo que se vive, se partilha e se transforma.
No caso da música electrónica, este estatuto reconhece:
A importância dos clubes e espaços culturais como locais de criação artística
O papel dos DJs e produtores como agentes culturais
A transmissão de conhecimento entre gerações
A música electrónica como expressão social, artística e identitária
Este enquadramento abre também portas à preservação, valorização institucional e apoio cultural a uma cena que sempre existiu à margem, mesmo quando influenciava o mundo inteiro.
A French Touch: Um Legado Global
É impossível falar deste reconhecimento sem falar da French Touch. Mais do que um estilo, foi um movimento cultural que redefiniu a música de dança global nos anos 90 e 2000.
Nomes como Daft Punk, Cassius, AIR, Étienne de Crécy ou Justice levaram o som francês para os maiores palcos do planeta, misturando house, disco, funk, electrónica e uma identidade estética própria. A influência ultrapassou fronteiras, inspirou gerações e colocou França no centro da cultura clubbing mundial.
Ao reconhecer a música electrónica como património, França reconhece também este legado e a sua contribuição para a cultura contemporânea global.
Um Sinal Claro para o Futuro
Este passo insere-se numa mudança mais ampla na forma como a música electrónica é vista a nível internacional. Cidades como Berlim já reconheceram a cultura de clubbing como património cultural, e vários países começam a perceber que aquilo que acontece na pista de dança é tão relevante quanto qualquer outra manifestação artística.
A música electrónica não é uma moda passageira.
É uma linguagem cultural do nosso tempo.
Este reconhecimento cria um precedente importante e pode ser o primeiro passo para uma futura candidatura à lista de Património Cultural Imaterial da Humanidade, elevando ainda mais o estatuto global da cultura electrónica.
Muito Mais do Que Música
No fundo, esta decisão não valida apenas um género musical. Valida comunidades inteiras. Valida a pista como espaço de encontro. Valida o DJ como contador de histórias. Valida a noite como território criativo.
A música electrónica sempre foi sobre união, partilha e liberdade. Agora, passa também a ser oficialmente história.
E talvez essa seja a maior vitória de todas.
